52 anos desde que a rádio emitiu "Grândola, Vila Morena" e os tanques desceram a Avenida da Liberdade. O 25 de Abril de 1974 não foi apenas um golpe militar bem-sucedido, foi o culminar de um sufoco coletivo e o nascimento de uma esperança que, ainda hoje, define o que significa ser português. No entanto, ao olharmos para o cravo que simboliza esta revolução, é imperativo perguntar: estamos a celebrar uma memória estática ou a honrar um processo vivo?
A maior conquista de Abril é, sem dúvida, a liberdade. Sair da sombra do medo, poder discordar sem o espetro da censura e votar em consciência são pilares que a minha geração, felizmente, damos como garantidos. Mas a democracia não é um estado de graça permanente, é uma construção diária que exige manutenção. O país transformou-se profundamente através dos "três D’s" (Descolonizar, Democratizar, Desenvolver), permitindo o acesso universal à saúde, a erradicação do analfabetismo e a tentativa constante de justiça social.
Contudo, hoje o desafio é outro. Vivemos num tempo de polarização crescente e de um certo cansaço democrático. Quando a abstenção se torna o partido maioritário e o populismo simplista ganha terreno, Abril parece distante. A corrupção, a crise na habitação e as dificuldades económicas criam um terreno fértil para a nostalgia de um "tempo de ordem" que, na verdade, era um tempo de mordaça e pobreza escondida.
A liberdade não é um fruto que se colhe uma vez, é uma árvore que se rega todos os dias com participação e exigência crítica. Celebrar esta data não pode ser apenas um exercício de retórica política ou um desfile anual. É, acima de tudo, um compromisso com a transparência e com a inclusão.
O melhor tributo que podemos prestar aos capitães de Abril e ao povo que saiu à rua não é apenas cantar o hino, é lutar para que Portugal seja um país onde os jovens não sintam que a única saída é a emigração e onde a dignidade não seja um luxo, mas um direito de facto. Abril é agora. Sempre. Para que a madrugada esperada não se transforme num crepúsculo de indiferença.
Bruno Santos
Licenciado em Estudos Europeus, mestrando em Administração Público-Privada e pós-graduando em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa.
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