Eis que o Sol regressa ao equador. Durante escassas horas tornamos a viver uma ilusão efémera de igualdade entre luz e trevas. Felizmente, algumas das ilusões a que assistimos à nossa volta são como esta: breves.
Faz hoje, simbolicamente, três meses que o congresso dos astros deu espaço ao triunfo do Sol - e com esse triunfo a certeza da queda. Há seis meses procedeu às partilhas entre os instáveis amantes que dominam o nosso firmamento: o Sol e a Lua - ou, melhor dito, o dia e a noite. Não há novidade nisto. Não há novidades, também, nisto.
Na hora exata do equinócio (ou talvez do equilux), o hemiciclo do tempo isenta-se de maiorias. Há duas metades perfeitamente simétricas, e cada uma fustiga rumo ao seu extremo. Foi assim há seis meses; torna a ser assim agora.
Há, todavia, uma diferença crucial: a direção. Se no equinócio da primavera a igualdade foi estabelecida num apeadeiro do crescendo da luz, desta feita o comboio vem de regresso. O pendular da vida - este sim, apenas animado por energia solar - não descansa: detém escrupulosamente a marcha e abre as portas para levar e trazer coisas. Nos apeadeiros chegam e partem pertenças e ausências. Nem o pendular, nem o apeadeiro, perdem tempo a ponderar se são boas ou más; apenas chegam e partem. Apenas quem se mantém, imóvel, sem chegar nem partir, nutre o interesse de as pintar com a trincha do maniqueísmo.
Se é verdade que há seis meses estivemos numa conjuntura idêntica, e que de lá para cá a luz ganhou terreno à noite até ao paroxismo do solstício joanino (o do precursor); não é menos verdade que daqui a seis meses tornaremos a verificar o mesmo circuito.
O comboio deteve a marcha. Levará as tardes quentes, a paixão efervescente dos veraneantes, levará a trégua dos ventos do inverno. Levará muito, deixará folhas secas, comida de conforto, jeropiga - e a mim, que vou aprender a gostar de castanhas, pois o comboio convenceu-me. Não levará quem não soube ir. Não ficará quem não teve medo do salto arriscado entre a plataforma, cheia de panfletos e comunicados, e a carruagem, cheia de caminho. Ou simplesmente não tinha bilhete, e achava que precisava, apesar do renovado passe anual.
Virá o Inverno - daqui a nada. O Sol, tornado pequenino, renascerá. E a noite, ainda que triunfante, saberá morrer como deveria saber quem habita o firmamento - porque estar no firmamento não é o mesmo que ser o firmamento.
Se, há seis meses, o pendular deixou novidades e desta vez não as leva, veremos o que nos dirá o pica na próxima primavera. Vivamos o Outono com a sua límpida beleza. O frio não é mau apenas por ser frio; o frio pode ser bom por nos congregar no desafio e, no outro, relembrar o calor dos sóis internos - esses que não têm por que obedecer às estações, sobretudo quando alinhados em constelação.
António Carraco dos Reis
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