A Dança da Morte

Aproximamo-nos de mais uma meia-noite que poderia unir opostos. Separa-os, porém, numa conveniência estética consentânea com o vazio em saldo: solução primeira face à implacabilidade dos dias que marcam a nossa existência.

Ficamos em cima do muro que somos, o muro de uma humanidade falível e amedrontada, aquém e além de si mesma, descendo de forma apressada para o antes e para o depois.

São dois opostos, duas libertações, duas não-catarses performativas que encarnam uma diferença pontual em vidas a quem foram roubadas a capacidade de ser inteiramente, além das personagens destes dias. Falo de duas posições arquetipais de força e coragem face à morte.

No dia 31, o industrial dos açúcares, das tintas e dos tecidos arma-nos de alegria, de festa, de um destemor-comprado em relação ao outro lado da curva.

No dia 1 (poderia ser no dia 2), o orgânico das flores, da água, das lágrimas e do cheiro a terra molhada fingem lavar o resto do ano, oferecendo-nos um chão presente e sensorial - a suposta certeza sobre a eternidade da alma e a reconciliação com o não-futuro.

O que separa o Halloween do Dia de Todos os Santos não é apenas a meia-noite, não é apenas a proveniência cultural, não é apenas a convicção metafísica: é a escolha pela forma que melhor se encaixa em nós para vivermos a vida enquanto fugimos da morte. Pode ser, ainda, a tentativa de viver os dois lados da moeda, apertando a noite para que fique curta e caibam os dois dias. Uma e outra são coreografias. São danças que, tal como todas as outras, só existem porque há música - e não falo de música para os ouvidos.

Eu creio que não é suposto sabermos lidar com a morte, nem com o terror desumano, nem com o amor. Não é suposto virmos para a escola previamente ensinados. Afastando-nos da vida, percebemos uma verdade simples: na escola fazemos pouco mais do que errar e aprender. Errar menos, aprender mais, esquecer, tornar a errar, cansar, não querer aprender mais e, apesar da dor e da frustração, continuarmos na escola, ainda que sem paredes. É isso que nos ensina a errar cada vez melhor e a aprender com uma subtileza acrescida. Na pausa para recuperar o fôlego, compreendemos que o erro, a falha e o nervosismo foram a pontuação que a nossa condição de humanidade encontrou para nos fazer atravessar este percurso vertiginoso de eterno aprendiz, enquanto o tempo passava e nós passávamos por ele.

É afinal nesta escola que cruza outubro para novembro que a sociedade aprende a sobreviver animicamente à finitude. Aprende a vestir-se de quem não sabe ainda ser, a armar-se da coragem que ainda não tem, sabendo que tanto uma fantasia como um luto são caminhos opostos que dão para o mesmo destino. Cumpre-se, assim, o ritual - seja familiar, seja social -, dando sentido a um tempo do qual, por mais que dancemos, por mais que caminhemos, não podemos fugir.

António Carraco dos Reis

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