A Preguiça de Pensar

Eu não nego um bom prato do dia.

Ainda não é incomum passar pelas ruas da Figueira da Foz, durante a semana, e encontrar os restaurantes cheios de residentes e profissionais para almoçar. Uns porque não têm tempo de ir a casa, outros porque não conseguem ou não querem a marmita, e há ainda os que almoçam fora diariamente porque gostam. Em muitos dos casos, além da carta, encontra-se a sugestão do chefe ou o chamativo menu executivo - o prato do dia. Estas opções mais económicas, feitas para quem está pronto a comer, são, regra geral, escolhas sensatas.

E a razão do seu êxito é simples e legítima. No ecossistema da restauração - como em qualquer negócio -, o prato do dia cumpre uma dupla conveniência. Ao cliente, resolve a urgência do tempo e da carteira com uma refeição rápida e honesta; ao estabelecimento, assegura a gestão do armazém. O menu diário rentabiliza o custo dos ingredientes e acautela a frescura da matéria-prima que, estando em perfeitas condições, precisa de sair no tempo certo para não se perder. É a eficiência a dar lucro. Ademais, pensado para saciar sem enfartar, o prato do dia deixa quase sempre espaço para o digestivo que abranda o estômago, ou para o segundo café que sacuda a sonolência trazida pelo conforto da refeição. Mas a tarde chama e a vida tem de andar.

Todavia, não é nova a tendência dos que procuram uma alimentação mais consciente. Multiplicam-se os que querem saber a proveniência do que comem, que ponderam o impacto dessa ingestão no corpo e na mente, e que, em vez da apressada deglutição, escolhem o critério. Sejam os que preparam a própria comida com escrúpulo, sejam os que, ao comerem fora, exigem da carta algo mais do que a facilidade do sabor imediato - há quem recuse a passividade de comer sem se alimentar.

Pois também na vida do espírito a tentação da facilidade nos serve refeições intelectuais pré-embaladas. Na alta cozinha do debate público, confecionam-se diariamente narrativas e contranarrativas com o mesmo pragmatismo do cozinheiro que sabe fazer uma casa. Cozinham-se realidades e temperam-se meias-verdades para induzir a clientela a um determinado estado de espírito, no momento certo. O objetivo é claro: otimizar o consumo das massas e prender-lhes a atenção, empurrando o olhar para o prato vistoso que convém e desviando-o, com perícia, do que não interessa.

Se ainda não é incomum ver os restaurantes cheios de uma clientela diária e com apetite, talvez já seja incomum há demasiado tempo encontrar a praça pública habitada. A praça onde o espírito crítico se deveria alimentar da realidade e do futuro local esvazia-se, antecipando uma falência reflexiva alarmante.

E importa clarificar a responsabilidade para evitar equívocos. O soldado que marcha sob a intempérie, atento aos buracos do caminho, puxa da sua arma de serviço, por vezes, na tentação de se julgar o destinatário destas palavras. Não é. Não me refiro aos que cumprem a lida diária no terreno, na imprensa ou nas autarquias. Como escrevi a 23 de agosto sob a premissa de que “Não chove de baixo para cima”, a mira aponta aos habitantes das nuvens: a essa elite política que, querendo vir a servir-se da realidade, se resguarda do chão para não correr o risco da gravidade. A Figueira da Foz ganharia se tivesse elites políticas. Se o Pai Natal estiver a ler estas palavras (faltam quatro meses), afino o pedido: a Figueira da Foz precisa de elites dispostas a baixar à terra e a entrar na cozinha; não apenas a sujar as botas com a lama da rua, mas a besuntar a roupa com a gordura de quem assume o labor real e diário de confeccionar o pensamento. Se quem devia nutrir a cidade se remete ao vapor e não há ideias abertas na praça, a clientela sucumbirá à preguiça de pensar e comerá a primeira ilusão que lhe servirem.

Eu não nego um bom prato do dia, apenas por ser prato do dia. Todavia, quando me é acessível, procuro escolher. Cada um come o que gosta.

António Carraco dos Reis

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