A inteligência começa onde termina a obrigação de responder.
Vivemos seduzidos pelo dever da resposta imediata. A sociedade contemporânea hipertrofiou a opinião e vendeu-a como uma liberdade-obrigatória; fez do silêncio uma falha moral e da pressa uma ressaca ardente. O direito é uma salvaguarda, mas transformámo-lo no dever exaustivo de emitir sentença sobre o efémero - não importa que a sentença seja ponderada, justa, ou tampouco nossa.
Achar é eructar às duas da tarde. Opinar é contrair os músculos que não temos, diante de um espelho simpático. Saber é? A confusão entre estes três estados é a erosão da nossa lucidez.
Confesso a minha própria fraqueza neste vício. Na escrita que cultivo ou no calor da tertúlia viva - onde a maior dádiva é a presença de quem se respeita e pensa diferente -, sinto muitas vezes o impulso da resposta pronta. É a pressa-de-saber. É achar que se tem de saber. Não a sede genuína que nos liberta, mas a sua contrafação: a autoimposição de dominar a totalidade do instante - sejam lá “issos” o que forem.
Nesses momentos, vestimos uma gabardine engomada, tesa, grande. Parecemos maiores, mais compostos, inexpugnáveis. Todavia, sob essa carcaça rígida, pesada e asfixiante, perdemos a capacidade de nos dobrarmos. E quem não se dobra, não escuta.
Não ter opinião é um privilégio de honestidade. É a postura da escuta atenta, a humildade de permanecer na origem sem a farsa da sabedoria simulada. Existe algo manifestamente superior ao mero não saber: a consciência plena da própria nesciência.
Exibir um saber figurado no ponto zero elimina a oportunidade do saber real no ponto um. Quando nos precipitamos para aparentar domínio, fechamos a porta à aprendizagem.
A fricção com o outro-conhecedor expõe a nudez que a gabardine nunca tapou, na verdade. A vergonha nunca nasce da ignorância, mas do embuste de fingir não ignorar. O interlocutor atento percebe a fraude e cala-se. Esse silêncio é a punição mais humilhante: priva-nos do seu ensino.
Se opinar é como chegar, talvez saber seja como ficar.
A maior liberdade do espírito não é ter resposta para tudo. É o direito intocado - e receio que esteja em crise - de assumir a dúvida.
António Carraco dos Reis
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