Não chove de baixo para cima

Há na vida pública uma divisão de trabalho verdadeiramente admirável: a uns cabe a ingrata tarefa de marchar sob o torrencial; a outros, a patológica higiene de criticar a vertiginosa queda dos pingos desde o seco conforto. Na feira de acasos onde se cruzam a política local e a audácia de ter opinião, nem todos habitam o mesmo clima, ainda que todos garantam estar preocupados com a intempérie.

De um lado, prosperam as guaritas. Povoam-nas os mestres da prudência, meticulosos estrategas do resguardo que apreciam o desfile a partir da generosa varanda. Não se lhes aponte a ausência no dia a dia: o seu entusiasmo só desperta quando o calendário assinala feriado e a parada sai à rua com fanfarra e estandarte. Aí sim, espreitam a oportunidade de marchar sem gota de chuva que lhes estrague o vinco da calça. Contudo, se o sol teima em não raiar e o cavalo do comandante não vem garantido no convite, recolhem de imediato ao sótão. É uma cobardia cheia de estofo, ornamentada por um ego que não suporta ser simples soldado na tempestade ou ver a sua tese exposta ao contraditório. Esperam que o tempo mude, convictos de que a pátria lhes deve um perpétuo dia de sol posto.
Do outro lado, caminham os do costume: os incautos da coragem e os sedentos da recompensa. Aqueles que, ignorando a conveniência do mofo, abandonam a guarita e aceitam o batismo da chuva, bem longe das luzes dos dias festivos - uns movidos pela nobreza do dever, outros pelo cego apetite do galardão. Assumem duas posturas de gravidade incomensurável, distintas na forma, mas idênticas no risco.

A primeira é a do combate autárquico: a do cidadão que dá o rosto nas urnas e aceita a lama nas botas. A segunda, de uma solidez não menos severa, é a da palavra assumida e pública. Há quem teime na insolência de gravar a sua assinatura no cimo do que pensa, sabendo que cada posição expressa comporta um custo sério. Um custo que nunca é pago à tipografia, mas sim exigido, com juros de azedume, por quem padece de uma profunda incapacidade de ler. Assumir publicamente a própria visão é um convite para que a turba dos que gritam em sussurro exercite a sua pontaria com as pedras que guardam na cama e lhes roubam a noite de sono.

Porém, quem faz a estrada sob a intempérie sente que precisa mais de atentar nos buracos do caminho do que naquilo que paira sobre a sua cabeça. Absorvido pela urgência do próximo passo e pela fúria da caminhada, o marchante raramente atenta na sociologia dos céus. A água não cai por acaso; nasce do vapor frio dessas nuvens que gerem o tempo com o calculismo de quem distribui promessas gasosas. O tempestuoso empurrão que a nuvem dá para atirar o autarca para a linha da frente do combate eleitoral é recebido pelo ingénuo - ou pelo ambicioso - como uma prova de consideração. Ocupado em desviar-se dos buracos do caminho, dificilmente percebe que assistiu apenas ao sacrifício do peito alheio ao primeiro tiro.

Se a chuva não fosse transparente, revelaria a exata tonalidade da ilusão e a percentagem de tinta com que a nuvem pintou o engano antes de soltar a gota. Fica o espetáculo agridoce de ver o homem despenhar-se na sarjeta, confortado pela promessa verbal da nuvem de que a sua desgraça servirá para adubar um bucólico jardim.

Diz-se frequentemente que a guerra é o triste palco onde os jovens se matam por ordens e cálculos dos velhos que ficam abrigados. Nesta pequena comédia humana que encenamos, os caminhos do combate por vezes cruzam-se - o homem que foi às urnas e o homem que pensa sobre o que aconteceu encontram-se no chão da estrada. E eis a suprema ironia: o eleito, tolhido pela dor da queda e pelo choque do solo, atira-se furioso não contra a nuvem que o precipitou, mas contra o olhar límpido de quem se limitou a testemunhar a sua trajetória. Esquece-se de que essa nuvem calculista, perita na arte do sumiço, já nem sequer se avista no firmamento.

E todavia, para desgosto dessas nuvens de ocasião, a gota cumpre o seu fado. Ao bater no solo, o que era cálculo lá em cima converte-se em vida na terra. O fruto do sacrifício e da palavra corajosa pertence à pólis, enquanto o cinismo da nuvem se dilui na primeira aragem.

A quem aceitou a marcha, o risco e a calúnia da incompreensão, resta o conforto de não ter negociado a veracidade. A nuvem, do alto do seu pedestal feito de fumo e vapor, continuará a prometer um regresso triunfal aos céus para o próximo feriado. Mas a física da honra não aceita recursos: a gota que desceu, tombou e conheceu o pó da estrada ganhou o peso da realidade. E, por mais que a retórica dos gabinetes esperneie, a água nunca chove de baixo para cima.

António Carraco dos Reis

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