A quem interessa a normalidade?

Existe uma pergunta que raramente fazemos porque aprendemos demasiado cedo a aceitar a resposta sem a questionar. A quem interessa a normalidade?
À primeira vista, parece uma virtude. Crescer, estudar, trabalhar, pagar contas, esperar pelas férias, reformar-se e desaparecer discretamente do palco da existência. Tudo muito organizado, muito previsível e, aparentemente, muito sensato. O problema é que uma vida perfeitamente organizada pode ser também perfeitamente vazia.
A normalidade tornou-se uma espécie de religião silenciosa. Não possui templos nem sacerdotes, mas tem milhões de seguidores. A sua principal doutrina é simples. Não sobressaias. Não compliques. Não faças perguntas inconvenientes. Se todos caminham para a direita, talvez seja prudente fazer o mesmo, mesmo que ninguém saiba exatamente porquê.
Curiosamente, quase toda a humanidade admira pessoas extraordinárias, mas espera que os seus vizinhos permaneçam rigorosamente comuns. É uma contradição deliciosa. Aplaudimos quem mudou o mundo, mas desconfiamos de quem tenta mudar a sua própria vida. Talvez seja esse o verdadeiro poder da normalidade. Não impedir que existam sonhadores, mas convencer a maioria de que sonhar é uma atividade pouco prática.
A vida, porém, nunca foi concebida para ser um exercício de repetição. A natureza oferece-nos essa lição todos os dias. Não existem duas árvores iguais, duas nuvens iguais ou duas ondas absolutamente idênticas. Só o ser humano decidiu fabricar pessoas em série. É curioso observar como muitos confundem estabilidade com ausência de aventura. São conceitos completamente diferentes. Uma árvore pode ter raízes profundas e continuar a crescer em direção ao céu. Pelo contrário, uma pedra permanece exatamente no mesmo lugar durante milhares de anos. A estabilidade pertence às árvores. A imobilidade pertence às pedras.
Há quem viva décadas sem cometer um único erro memorável. Também não coleciona grandes vitórias, nem histórias capazes de provocar um sorriso à mesa de jantar. A existência transforma-se numa sucessão impecável de dias esquecíveis. No fundo, é uma biografia escrita a lápis. Os desafios são frequentemente apresentados como incómodos visitantes. No entanto, são eles que dão estrutura à personalidade. O carácter não nasce do conforto. Nasce da resistência. O marinheiro aprende durante a tempestade. O alpinista cresce na montanha. O investigador faz descobertas precisamente porque decidiu desconfiar daquilo que todos consideravam evidente.
Sem desafios, a inteligência adormece. Sem risco, a coragem não encontra ocasião para existir. Sem dúvida, a sabedoria nunca chega. Talvez por isso o tédio seja uma das doenças mais silenciosas do nosso tempo. Não faz barulho. Não provoca febre. Apenas esvazia lentamente o entusiasmo. Um dia percebemos que já não esperamos nada de especial na manhã seguinte. É um sintoma preocupante. Não da idade, mas da resignação.
Há uma ironia em tudo isto. Passamos metade da vida a comprar agendas para organizar o tempo e a outra metade a perguntar para onde foi esse mesmo tempo.
Conseguimos planear reuniões com uma precisão admirável, mas esquecemo-nos de marcar encontros com o inesperado. A normalidade possui ainda outra característica fascinante. Faz-nos acreditar que a segurança absoluta existe. Não existe. A vida nunca assinou esse contrato.
Podemos seguir todas as regras e, ainda assim, ver escapar-nos aquilo por que mais lutámos. Podemos fazer tudo corretamente e descobrir que a felicidade decidiu tirar férias sem aviso prévio. O Universo nunca prometeu justiça matemática. Prometeu apenas movimento. Por isso, talvez o verdadeiro erro não seja correr alguns riscos. O verdadeiro erro é desperdiçar a oportunidade de viver por medo de viver. Não significa procurar o caos. Significa aceitar que crescer implica atravessar territórios desconhecidos. O explorador não parte porque tem garantias. Parte porque a curiosidade pesa mais do que o receio.
Cada desafio ultrapassado altera subtilmente a nossa identidade. Tornamo-nos pessoas diferentes não porque o mundo mudou, mas porque fomos obrigados a descobrir capacidades que ignorávamos possuir. É precisamente aí que reside o encanto da existência. A vida não é um museu onde tudo deve permanecer intacto. É um laboratório. Um jardim. Uma viagem. Um livro cujas melhores páginas ainda não foram escritas.
Talvez seja essa a razão pela qual as memórias mais felizes raramente começam com a frase "Foi um dia perfeitamente normal." Começam quase sempre com algo inesperado. Uma decisão improvável. Uma viagem sem certezas. Uma conversa transformadora. Uma porta aberta por curiosidade.
No final, ninguém deseja ser recordado pela perfeição da sua rotina. Recordamo-nos das pessoas que ousaram pensar de forma diferente, amar de forma intensa, aprender continuamente e conservar a elegância mesmo quando a vida insistia em complicar-lhes os planos. A normalidade pode oferecer conforto, mas dificilmente oferece significado. E uma existência confortável, desprovida de espanto, acaba por ser apenas uma longa sala de espera. Viver, no sentido mais pleno da palavra, talvez seja exatamente o contrário. É escolher a inquietação em vez da indiferença. A descoberta em vez da repetição. A curiosidade em vez da conformidade. Porque uma vida sem desafios não é uma vida tranquila. É apenas uma história onde nada de interessante aconteceu.

António Ambrósio

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