Ouço o restolhar das folhas a despedirem-se pontapeadas pelos ventos inclementes do outono. Arrebata-me uma nostalgia doída nos amarelos secos, nos vermelhos terrosos e nos verdes moribundos a eito espezinhados.
Há alguns anos a minha criança tem recolhido no máximo duas folhas - dantes eram as pratas coloridas dos chocolates - e preserva?as deitadas entre memoriais de folhas brancas datadas.
As vidas longas contam-se pelos anos despedidos preservados como um Madeira seco de amarelos, vermelhos e verdes outonais saborizados com pinceladas taninas das memórias intensas da vida já vivida.
Contam-nos meninos e meninas velhinhos que há aromas de beijos, olhares, toques, risos, sentimentos, desilusões, lembranças de tudo, tudo... inimagináveis, por vezes impartilháveis, nunca, nunca espezinháveis por vento nenhum porque são essências intemporais... são memórias sem estações...
Deprimo-me sempre nos primeiros dias do outono...
Walter Ramalhete
Figueira da Foz, 27 de Setembro de 2026.
Este texto foi escrito nos termos ortográficos anteriores ao actual (Des) Acordo ortográfico. Reservados todos os direitos de autor.
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