A Arte de Estar Sozinho

O silêncio da casa é solidão? Educados na insolúvel urgência e no vício das vozes interrompidas e sobrepostas, extraviámos a medida das coisas serenas e simples. Olhamos para o homem que se senta só à mesa de restaurante como se ele carregasse uma ferida, ou como se a ausência de testemunhas fosse uma condenação à inumanidade. Criou-se a ilusão de que só existimos quando alguém nos confirma, quando nos valida, e que ficar a sós com os dias é uma forma lenta de perder o mundo.

Aprender a estar sozinho não tem de ser uma recusa dos outros, nem a vaidade ingénua de julgar que não precisamos de ninguém. Essa falsa independência, sobre a qual já flirtámos noutros textos, é apenas outra máscara do orgulho, da soberba, outro muro erguido para evitar o risco da entrega. A verdadeira solitude, como nos habituámos a escutar e a dizer, é mais humilde. É a capacidade de demorar o olhar na luz que entra pela janela sem a necessidade imposta de a mostrar a alguém para que seja real e nossa. É aprender a suportar o peso da própria voz - e da própria incompetência -, sem exigir que ela se transforme num eco ou num pretexto para o aplauso ou para o cafuné.

Quando não sabemos habitar a nossa própria companhia, transformamos um qualquer próximo num analgésico efémero para o nosso pânico. Chegamos à praça e à amizade como pedintes, procurando nos outros a mentira para calar um vazio que nos recusamos a encarar. Estar sozinho é, por isso, a fundação para a atenção. É no recolhimento sem alarde que a palavra recupera o seu peso justo e a memória encontra o seu lugar.

Não me atrevo, contudo, a afirmar que o outro é ruído irremediável para o nosso discernimento. É possível, e até belo, encontrar fora de nós o espaço-tempo fértil e enriquecedor do nosso perfeito juízo e da plena fruição da vida. Confesso que, se fosse forçado a escolher entre um extremo e outro, optaria por este último. Mas os extremos são assim: limites. Se os transportarmos para o nível da dependência, ambos são nocivos, contraproducentes e mentirosos. Talvez, como em quase tudo na vida, o ideal resida no equilíbrio - não apenas o equilíbrio em matéria de tempo empregue, mas de conceção, de formulação e de poetar, sendo a tinta as escolhas modestas e o papel a vida imprevisível e surpreendente.

Só quem sabe ser indivíduo, nas suas distintas funções sociais, pode vir a ser um agente cívico não dependente do servilismo, nem da altivez. Só quem exerce o poder sobre a sua vida não precisará do outro para sentir que nele o exercerá - para que isso, afinal, possa ser algo bom.

Saber estar sozinho é uma arte necessária. Escolho acreditar que é uma arte necessária num ou em alguns segmentos temporais da vida, e que a sua vivência confere ao corpo e ao espírito ferramentas para se estabelecer uma espécie de endossimbiose duradoura, profícua, serena e, posteriormente, natural.

Mas há, para mim, uma verdade inabalável: só quem sabe permanecer só, sem desespero nem arrogância, pode depois abrir a porta e receber o outro não como um refúgio para o medo, mas como uma graça, uma bênção à medida das nossas presenteadas mãos.

António Carraco dos Reis

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