Erguemo-nos sob o peso implacável do malhete da memória!

(Discurso que seria proferido hoje, por António Carraco dos Reis, presidente da direção da Associação Cívica e Cultural 24 de Agosto, na cerimónia de homenagem a Manuel Fernandes Tomás e que foi cancelada devido às condições atmosféricas adversas, segundo indicado pela autarquia figueirense).

Celebrar o 24 de Agosto, nesta mui nobre, e tão nossa cidade, a Figueira da Foz, não é um elogio fúnebre, é um sobressalto!
Não viemos aqui para embalsamar o passado com o incenso da retórica, mas para desenterrar o fogo. O fogo indomável que, em 1820, incendiou o peito de Manuel Fernandes Tomás e transformou o medo em sabedoria! E como ele, homens e mulheres livres e de bons costumes que recusaram o silêncio imposto, rasgaram o manto da tirania para esculpir a ferro e sangue o trono-para-todos da liberdade. Eles sabiam - com a lucidez dos mártires - que a Liberdade e a Igualdade são meras metades de uma estátua, se desprovidas do cimento, da argamassa, subtil mas invencível, da Fraternidade.
Não nos iludamos! A Fraternidade não é um adorno decorativo. Não é um mantra para ser declamado na segurança burguesa e confortável dos salões.
A Fraternidade é uma ferida aberta. É um caminho áspero.
E este caminho não se inicia na suntuosidade dos palácios, nem na geometria perfeita das chancelarias. Não começa na política, ainda que possa, e deva, chegar até lá. A alta política tem o dever moral e legal de a acolher e saber manter.
Mas Ela, a Fraternidade, começa verdadeiramente na sujidade das calçadas onde nós, de pé, olhamos para o Outro. Começa na nossa rua. Sangra na praça pública. Germina, acima de tudo, no alcatrão que une a nossa cidade.
O verdadeiro heroísmo, hoje, já não carece do estrondo das armas. Existe algo mais raro, muito mais violento e audaz: olhar para o Outro.
Olhar para o Outro, não como um espelho do nosso orgulho, ou uma deformidade à luz dos nossos imaculados valores, mas como um abismo da nossa própria responsabilidade.
Não somos imaculados. Nós não somos imaculados…
Sejamos para o Outro!
Façamos do estranho o nosso destino. Vejamos os tempos que correm:
Respiramos uma atmosfera cinzenta, asfixiada por uma polarização violenta. O radicalismo estéril gela os lábios e destrói o tecido da cidade. E fá-lo, infelizmente, de forma tão verdadeira por fora, nos outros, nos radicais, nos ignorantes, como por dentro, em nós, radicais, ignorantes.
Se a sociedade está polarizada, e nós somos parte da sociedade, então nós somos parte desta polarização.
Fraternidade não é resolver a polarização, eliminando tensões pela morte do polo que cheira pior, do que grita mais alto ou do que diz mais impropérios.
A Fraternidade une o que está disperso.
Multiplicam-se os muros da incompreensão; escasseiam as pontes do diálogo. E perante este deserto moral, a cobardia disfarça-se de prudência, empurrando-nos para o paradoxo da tolerância.
Escavamos trincheiras para neutralizar trincheiras rasgadas por outros que consideramos errados.
Cada trincheira aberta é um convite a novas trincheiras reativas.
Por muito certos que entendamos estar, estamos a escavar trincheiras.
E as trincheiras servem para o que servem.
Tenho dúvidas que na sociedade, como é na matemática, menos com menos possa algum dia vir a ser mais.
Eu creio que nós não devemos ter medo. É tempo de fustigar este paradoxo.
A tolerância que a nossa terra reclama não é a complacência fraca do indiferente; é a tolerância ativa. Seja o diferente político, estético, cultural, religioso ou ideológico.
Trabalhar a pedra traz desconforto. O desconforto é condição desse trabalho.
O abraço não é verdadeiramente desconfortável por abraçamos o diferente.
O abraço é verdadeiramente desconfortável, é verdadeiramente desafiante quando abraçamos o errado.
O abraço é ainda mais desconfortável quando entendemos no peito que se encosta ao nosso, um erro que existe em nós e nós queremos exorcizar.
A nossa aspereza pode evidenciar-se ao urgir reconhecer e exorcizar apenas do outro. É mais fácil. É menos vergonhoso.
Fraternizar com os nossos iguais, com quem está menos longe de estar certo é um mero automatismo da simpatia. É um exercício de vaidade cívica.
A Fraternidade autêntica, aquela que os nossos fundadores nos legaram como mandato, prova-se no fogo vivo da diferença, do convívio com o erro, com o desvio
É ser irmão de quem nos contradiz, de quem nos afronta com a discórdia, com a fraqueza que nos incomoda.
Seja a discórdia fácil, seja ela indiferente, seja ela difícil. Seja doce, seja amarga.
A Fraternidade é um combate em que vale sempre a pena militar. Não combatamos o radicalismo com a moeda gasta da exclusão.
Sejamos o escândalo da generosidade!
Respondamos com o magnetismo contagiante do exemplo. É através da nossa inabalável integridade (que falha), da nossa coragem na praça pública (que nos faz tremer), que resgataremos aqueles que o extremismo afastou (seja qual extremismo for).
O exemplo converte, o exemplo pacifica.
Ao colidirem com a nossa firmeza, muitos daqueles que hoje julgamos intolerantes cederão eventualmente diante do respeito e regressarão pelo próprio pé à vereda da união.
Olhamos à volta e vemos que conquistamos a Beleza e a Força para combater.
Olhamos à volta e vemos o progresso do pensamento sobre Liberdade e de Igualdade.
Trabalhemos para sublimar a Sabedoria e concretizar a fraternidade.
Tenhamos a Sabedoria e a Mestria para produzir e aplicar a argamassa da Fraternidade.
Meus queridos conterrâneos | Meus queridos amigos | Meus queridos irmãos nesta vontade de ser fraternidade,
Que a memória viva de Manuel Fernandes Tomás nos incendeie a alma.
Que não sejamos herdeiros sonolentos de uma glória antiga, mas construtores inquietos de uma alvorada fraterna que apesar de ter começado no passado, ainda tem muito futuro por alvorar.
Olhemos para o nosso vizinho. Estendamos a mão ao nosso mais feroz oponente.
E se Deus quiser, e se nós fizermos por isso, teremos um compromisso eterno e vivo na carne de cada um de nós.

António Carraco dos Reis

COMENTÁRIOS

ou registe-se gratuitamente para comentar.
Critérios de publicação
Caracteres restantes: 500

mais

QUEM SOMOS

O «Figueira Na Hora» é um órgão de comunicação social devidamente registado na ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social). Encontra-se em pleno funcionamento desde abril de 2013, tendo como ponto fulcral da sua actividade as plataformas digitais e redes sociais na Internet.

CONTACTOS

967 249 166 (redacção)

geral@figueiranahora.com

design by ID PORTUGAL