A bolha politiqueira da Figueira da Foz foi hoje surpreendida por uma comovente tentativa de redenção, daquelas que nos relembram, com precisão quase matemática, que desembarcámos em plena silly season política.
Se é verdade que os cânones das boas práticas do combate político andam órfãos no nosso concelho, e que certas forças partidárias são, a nível nacional, exímias na arte de abandonar a decência à sua sorte, forçoso é reconhecer — com mui sincera pena minha — que, na Figueira, a distinção não é assim tão vincada. O fenómeno observa-se em todo o espectro: na Câmara Municipal, na Assembleia Municipal e em uma ou duas assembleias de freguesia que acompanho com maior regularidade.
O nível do combate político local não é arquetípico; nem sequer é líquido. No nosso pequeno burgo, ao contrário da nação ou de outras paragens, seria ingénuo pressupor que o menor polimento venha, natural e expectavelmente, de determinadas forças em detrimento de outras. A indigência do debate é democratizada.
Há pouca oposição na Figueira da Foz. Em rigor, isso deveria deixar-me satisfeito, dada a minha assumida matriz social-democrata. Mas basta-me pensar três segundos além do meu umbigo, basta-me desviar por cinco segundos o olhar do chão que piso para fitar o horizonte, e basta-me ser honesto por sete segundos para perceber que a escassez de oposição é manifestamente insuficiente para fundamentar qualquer contentamento genuíno.
Se olharmos para a cidade, para a polis, para os seus destinos como resultado direto da interferência dos seus agentes — mais ou menos partidários, mais ou menos politizados —, compreendemos que a massa crítica é fundamental. A reflexão é basilar. O planeamento é imprescindível. O diálogo e a heterogeneidade são condição sine qua non para erguer um futuro sólido, edificado sobre a realidade e não sobre os humores ou as vontades de dois ou três intervenientes.
Foi, admito, com entusiasmo que vi a mancha laranja expandir-se no mapa das freguesias do concelho. Acompanhei, sem distração, os sinais que ao longo do mandato iniciado em 2021 tornavam esse desfecho expetável e natural. A vitória desenhou-se não apenas pela tática ou pela natureza de quem a concebeu, mas sobretudo pela imprevisível natureza humana de quem se deixou pintar. Somos humanos — com todo o esplendor e toda a fragilidade que a condição comporta.
Estamos, de facto, na silly season. Trazemos os ouvidos estafados, demasiado saturados para reagir aos estrondos que nos invadem a casa. Há, indiscutivelmente, fumo no ar da nossa praça. Falta-me apenas perceber se o esturro vem do tiroteio das trincheiras ou se é apenas o perfume do porco a assar no espeto.
António Carraco dos Reis
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