Há uma tragicomédia no nosso espetáculo, a partir de janeiro, ao começarmos a desenhar o nosso próprio resgate. Compramos guias, estudamos mapas com o zelo de quem prepara uma invasão militar e projetamos sobre três semanas de agosto o encargo bruto de salvar doze meses de servidão. Planeamos a "felicidade" com uma antecedência tão minuciosa que, quando ela finalmente devia acontecer, já chega morta pela asfixia da "antevivência".
A neurose contemporânea vende a "visualização" como a sementeira do sucesso, mas a vida real - que não lê manuais de autoajuda - encarrega-se de o desmentir ao nível desta equação matemática e implacável: o saldo da satisfação individual tende a ser o resultado da experiência real menos a expectativa acumulada. (Atente-se: não se nega aqui a virtude da visualização sensata e inteligente, mas o equilíbrio, como em tudo, é a chave). Quanto mais alta é a fasquia da ilusão que carregamos na bagagem, maior é a probabilidade de passarmos as férias de sobrolho carregado, ressentidos com o vento que sopra do lado errado ou com a fila do restaurante que arruinou o "momento mágico" desenhado numa folha de Excel em fevereiro.
O que nos acontece de genuíno nos "verões" - ou em qualquer outra não-estação - é, quase sempre, o imponderável. É o pneu furado numa estrada secundária que nos obrigou a falar com um estranho; é o restaurante feio que nos serve o melhor peixe do ano; é a chuvada súbita que estraga o plano de praia e nos obriga a olhar, molhados, para a pessoa que temos ao lado sem a distração da paisagem. O imponderável é o único ar limpo que entra na arquitetura sufocante do nosso controlo hermético, mesquinho.
Passamos o ano a arrumar a existência em gavetas etiquetadas: a carreira, o dever, a rotina, o prestígio. Fechamo-nos nesses compartimentos estanques e, por falta de corrente de ar, o tecido dos dias ganha mofo. As traças do tempo comem-nos vivos. Depois, chegamos a agosto e exigimos que a vida ganhe a frescura de um palácio aberto ao mar, e a nossa carne esteja inteira, luminosa e instagramável. Queremos pintar a parede do quarto com a tinta da liberdade, mas só nos dão um pincel pequeno e uma licença de vinte e dois dias por ano - trinta se contarmos com os fins de semana, escassos 8% do ano, se quisermos ser rigorosos. E o mais ridículo é que pagamos essa tinta a peso de ouro, convencidos de que estar deitado numa toalha a dois centímetros do joelho de um desconhecido é o auge da autonomia humana.
Se é verdade que esses vinte e dois dias são uma plataforma de oportunidade para a intensidade de um outro-viver contínuo, não é menos verdade que os trezentos e quarenta e três que sobram constituem o grosso da nossa existência. É legítimo, e creio que até desejável, querer otimizar o potencial de alegria nas férias - quem não aspira a ser "feliz quando pode"? A minha proposta é que parte desse foco, desse investimento de raciocínio, criatividade e planeamento, seja desdobrada par dos tais 92%, esticando o "quando podemos" para um tendencialmente sempre; desinvestindo na contabilidade dos lençóis do resort em favor da leveza e do sorriso do quotidiano de quem os dividirá connosco.
A verdadeira autenticidade do momento não se encomenda num pacote turístico - apesar de poder acontecer neles - nem se garante com reservas antecipadas. Não se garante... Mas podemos arriscar conquistá-la com a coragem de largar a obsessão dos mapas, esvaziar a bagagem de expectativas e aceitar o mundo exatamente como ele se apresenta: imperfeito, ruidoso e perfeitamente indiferente aos nossos planos. Tudo o resto é apenas a autópsia antecipada de um entusiasmo que morreu sufocado na nossa própria ansiedade.
António Carraco dos Reis
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