Proponho, hoje, que olhemos sem rodeios para a equação que sustenta o circo digital: para cada influencer, há influenciados. Falamos dos chamados "influenciadores" como se fossem oráculos de uma nova era, mas contornamos a verdade mais elementar desse fenómeno: a voz deles só existe porque há uma multidão silenciosa a entregar a sua atenção - a verdadeira moeda com que esses novos líderes de culto transacionam.
A questão central que cumpre colocar é simples: de que matéria é feita esta influência?
Sem qualquer pavor de parecer saudosista, importa recordar como se tecia, outrora, a nossa relação com a realidade local. Havia essencialmente duas fontes de atualização: a conversa viva - na esplanada, na praça, no bar da coletividade ou à mesa de jantar - e a leitura do jornal da nossa terra. Ambas possuíam uma virtude hoje extinta: a integralidade.
Não se trata de idealizar o passado. Nesses palcos de outrora residiam, como é óbvio, a mesquinhez, a clubite cega e o murmúrio do cosquilhar. Mas residiam de corpo presente, expostos ao olhar, ao contraditório e ao atrito salutar da convivência. Ler um jornal local de fio a pavio obrigava-nos a percorrer uma carta vasta de assuntos: a nota editorial, a agenda cultural, o desporto, a necrologia, a política do burgo e o relato do crime. Mesmo com todas as suas falhas e limitações, havia ali o retrato sem filtro da comunidade viva. Conhecíamos os rostos, os feitos, os reveses e as misérias da nossa gente. Havia uma imagem integrada do tecido social.
Hoje, a arquitetura algorítmica entrega-nos um veneno servido em dois copos - e nós bebemos ambos até à borra.
O primeiro copo de veneno é a mutilação da realidade sob o pretexto do conforto personalizado. O algoritmo afere os nossos gostos e escava os nossos desinteresses. Se apreciamos desporto mas ignoramos as artes, ele enclausura o nosso mundo: entrega-nos uma enxurrada do primeiro e oculta-nos completamente as segundas. Sentimo-nos servidos por um editor feito à nossa medida, mas ficamos com uma visão coxa, amputada e fragmentada da existência. Perdemos a capacidade de compreender como os vários fenómenos da vida se entrecruzam.
O segundo copo de veneno é o engodo da convivência nos corredores virtuais. Apresentam-nos uma ilusão de companhia, mas o que lá encontramos não são pessoas: são apenas as suas pegadas. Vemos o vestígio efémero da sua passagem - o like, a reação, a "sujidade do sapato" de quem lá pisou -, mas sem a oportunidade concreta de olhar nos olhos, de sentir a presença, de provocar ou de partilhar.
É o triunfo de um tribalismo sem tribo.
Um tribalismo que se veste de área de interesse, de ideologia, de modalidade desportiva ou do tipo de sedativo que amiúde escolhemos para nos abstrairmos do peso dos dias. E há uma intenção deliberada nesse não-cruzamento: em cada pequeno compartimento do mundo em que habitam, as pessoas sustentam opiniões tão acérrimas, inflamadas e polarizadas - compram tão cegamente um lado da trincheira - que, se se cruzassem noutro corredor temático, descobririam divergências insustentáveis. Para não destruírem a ilusão da aliança, preferem evitar-se.
Este solipsismo autoinduzido ilude-nos ao fazer crer que nos abastecemos de informação válida e de que nos aproximamos dos outros. A realidade é o oposto: caminhamos para um isolamento absoluto, cheios de certezas incoerentes e inconjugáveis. O oceano que hoje nos separa do influencer do outro lado do mundo acabará por parecer pequeno quando comparado com o abismo que criamos pela indisponibilidade de conversar, ceder, partilhar ou apoiar quem se cruza connosco na vida real - sobretudo quando caminha em sentido inverso.
A verdadeira marca de uma existência não se mede pelo número de seguidores na bruma do ciberespaço, nem pelas pegadas efémeras deixadas nos ecrãs. O que importa é aquilo que gravamos na memória e no coração das pessoas reais que fazem parte da nossa vida - quer as tenhamos escolhido, quer o destino no-las tenha imposto.
E assim ficamos, no meio deste enredo, a assistir a um fenómeno generalizado e verificável em quase todos os espaços que frequentamos. Olhando bem para nós, quase parece que fomos subtilmente influenciados a pensar e a agir exatamente desta maneira. Ora, se para cada influencer há influenciados, a matemática não engana: para cada influenciado, tem de haver pelo menos um influenciador.
A pergunta que se impõe, então, é incontornável: quem foi esse grande influenciador discreto - feito de comodismo e medo - a quem nos submetemos, e que valor desmedido lhe atribuímos para lhe obedecermos tão cegamente?
António Carraco dos Reis
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