De que vale guardarmos apenas a memória da Romaria de São Tomé, na Ferreira-a-Nova, quando temos a imperdível oportunidade de a viver, sentir e tocar?
Vivemos à procura de certezas com cheiro a verdade em ecrãs e distâncias, esquecidos de que a vida real só acontece na nossa presença tangível. São Tomé não se contentou com o boato, nem apenas com o vislumbre distante; exigiu o contacto, a necessidade imperiosa de tocar e sentir. Deixou-nos uma lição insofismável: a verdade não se descobre na frieza da perceção remota. Beija-se presencialmente.
A romaria é a prova viva e pulsante desta máxima. A tradição não é um objeto estanque de museu - apesar dos seus mais de 700 anos de história -, mas um organismo vivo que respira e se renova. Sentimo-lo na solenidade do louvor ao padroeiro, na receção fidalga das cavalhadas, na bênção respeitosa dos animais, na eletricidade e emoção das garraiadas, no folclore autêntico dos ranchos e no convívio farto das tasquinhas.
A juventude assume-se, com honra, como o motor e o braço ousado desta organização, desempenhando um papel insubstituível na preservação da nossa herança. É auspicioso e reconfortante testemunhar este ressurgimento do envolvimento rejuvenescido nas nossas lides tradicionais. Um preclaro exemplo disso mesmo é a festa de São Pedro, na minha Freguesia de São Pedro - a comissão cessante já transbordava de força jovem, e a equipa que já aquece para entrar em 2027 mantém e aprofunda essa mesma vitalidade.
Voltemos a este fim de semana e a Ferreira-a-Nova: não nos contentemos, pois, com o mero ouvir dizer, nem com a cómoda abstenção do espectador distante. O desafio está lançado: provemos que a nossa identidade vale mais do que um ecrã. A dúvida moderna desfaz-se com clareza no recinto, entre as mesas partilhadas e o pulsar contagiante da festa.
Fica o apelo irrecusável e o repto à comparência, para viver e honrar, neste próximo fim de semana (de 23 a 26 de julho), na Ferreira-a-Nova, a jovem-há-mais-tempo Romaria de São Tomé.
António Carraco dos Reis
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