Nós gostamos de acreditar que domesticamos a máquina. A ilusão é comovente, mas falsa. Na engrenagem do nosso tempo, é a máquina que nos vai moldando. Molda o nosso pulso e os nossos afetos a uma estratégia fria e previsível.
A guerra já não é monopólio exclusivo dos Estados, das nações ou das grandes corporações. A guerra desceu ao nível do indivíduo comum, infiltrando-se no quotidiano de cada um de nós. E, no patamar desse combate diário, o conflito já não se trava por terras ou por bens, mas pela posse da nossa atenção.
A atenção tornou-se um minério mais valioso na praça. No mundo empresarial, a retenção do olhar do cliente deixou de ser uma fase do negócio para passar, em alguns casos, a ser o próprio negócio. Pode, hoje, ser menos exagerado acreditar que a indústria do entretenimento, a informação e o consumo já não vendem produtos; alimentam-se do tempo de quem os observa. Criam-se e negociam-se bases de dados que não são mais do que séquitos digitais - multidões cuja atenção é empacotada, cotada e transacionada entre esfomeados ao melhor licitador. No mercado bruto, a atenção é uma mercadoria que gera capital legítimo e quantificável. Se a empresa capta a atenção, converte-a em venda, presença, contrato ou recomendação. Há aí uma mecânica transparente, ainda que utilitária: a atenção serve para concretizar algo fora de si mesma.
O drama - e o verdadeiro abismo - começa quando o indivíduo decide importar esta mesma arquitetura empresarial para a sua vida privada.
Quando a lógica da empresa contamina a relação entre as pessoas, a atenção ao outro degrada-se no seu valor. Nas trocas digitais diretas, um para um, as pessoas passam a gerir os seus pares como se fossem mercados para consumo e a tratar a atenção alheia como um ativo a acumular. Mas, ao contrário da empresa, que converte a atenção em atos concretos, o indivíduo retém-na num circuito fechado. Implora-se e concede-se atenção através dos ecrãs sem que isso jamais se traduza em presença física, em fraternidade, em compromisso ou em crescimento mútuo.
Trata-se de um autotoque, pseudolascivo, egocêntrico e exclusivamente centrípeto. O indivíduo comporta-se como uma empresa falida que não-morre de criar tráfego artificial para um balcão onde nada se vende e nada se entrega. É a instrumentalização do outro para mera autovalidação - um consumo mútuo de reflexos onde duas pessoas se usam como espelhos para anestesiar a solidão ou a pouca confiança em si.
Receber atenção apenas para alimentar a vaidade do ego é o equivalente exato a mastigar cascas secas. Quem se sustenta com a ilusão de que a atenção do outro o define, sem nunca exigir nem dar presença física e compromisso verdadeiro, vive numa farsa digestiva. Pode sentir o estômago enfartado e eructar uma falsa saciedade; mas acabará, inevitavelmente, por morrer subnutrido.
E assim, para mim, é.
António Carraco dos Reis
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