O Ilimitado Impor de Limites

Num destes dias, no regresso de Seia para a Figueira da Foz, numa paragem para almoçar, assisti a alguns minutos do noticiário televisivo. Parecia haver no guionista da realidade portuguesa uma rima intencional em cada notícia: a necessidade gritante de impor limites. Viu-se isso na política e nas suas articulações de poder. Viu-se na guerra e na paz, nas narrativas e contranarrativas perante os cenários trágicos a que assistimos e sobre os quais tomamos posição. Viu-se nas dinâmicas familiares que só viram notícia quando acabam em tragédia, e até no tratamento que se dá ao árbitro, que varia consoante a claque em que nos sentamos na hora do apito.

Em todos estes discursos, dos mais íntimos aos mais públicos, repete-se a mesma fórmula: é preciso saber impor limites. Tornou-se uma frase fácil que aceitamos sem pensar muito - um conselho que soa bem, mas que raramente resiste à prova dos factos.

Chamar-lhe fórmula fácil não significa dizer que a necessidade de impor limites é uma ilusão. Pelo contrário, ela é real, urgente e dolorosa. Contudo, exige discernimento e tempo para pensar, em vez de ser comprada já feita na secção de autoajuda da livraria mais próxima. Pois no momento exato em que decidimos traçar uma linha no chão, a pergunta crucial continua por responder: qual é o limite para a criação do próprio limite?

A resposta mais rápida costuma apontar para a nossa capacidade ou para a nossa vontade. No entanto, se o limite for apenas a capacidade física ou mental, ele deixa de ser uma escolha consciente e passa a ser um simples ponto de exaustão - paramos apenas quando a força acaba. Se, por outro lado, for entregue à vontade, fica dependente do nosso lado mais instável, já que o desejo encontra sempre desculpas para ir mais longe.

Resta-nos a crença. Não o dogma religioso, mas a forma como entendemos o mundo e a nossa vida nele. Em teoria, a crença seria a única base legítima para decidir onde ceder e onde ser firme.

O problema é que a realidade atual coloca essa base em risco. Zygmunt Bauman explicou que vivíamos numa "modernidade líquida", em que as certezas e as relações humanas perdiam a forma sólida e se tornavam fluidas. Hoje, como se o mundo tivesse aquecido até ferver, talvez pelas alterações climáticas, essa realidade já nem sequer é líquida: tornou-se gasosa. As certezas evaporam-se no ar. Como pode uma crença ditar uma fronteira firme quando ela própria muda entre a manhã e a tarde, ao sabor da conveniência, das modas ou da falta de tempo e de vontade para pensar com liberdade?

Cabe perguntar se o crivo prévio à própria crença não será um equilíbrio difícil entre duas forças: aquilo que devemos conservar e aquilo em que precisamos de progredir. Sem essa tensão saudável entre preservar e avançar, a crença perde o chão e o limite passa a ser um mero capricho.

É nesta incerteza que a verdadeira natureza do limite se revela. O limite que dizemos impor raramente é sobre nós próprios. Para governar a nossa conduta existe uma palavra antiga: disciplina. O limite que dizemos "impor" é, quase sempre, uma tentativa de disciplinar o outro. É o uso da nossa autoridade sobre quem nos rodeia para proteger a nossa paz e o nosso conforto.

Essa proteção é necessária, claro. Mas assenta num terreno instável. Se a crença que justifica essa autoridade se desfaz no ar, a linha que traçamos no chão pode ser soprada pelo vento no momento seguinte.

Sem respostas feitas, perante o ruído das notícias e a volatilidade dos dias, o gesto mais honesto talvez seja simplesmente pagar a conta e levantar da mesa — ou pedir o comando para desligar a televisão. Mas a dúvida regressa ao início, desnudada de distrações: se tudo se evapora e se a crença que devia guiar a decisão se dissolve, qual é o verdadeiro critério na hora de agir?

Qual é, afinal, o limite para a criação do limite?

António Carraco dos Reis

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