Assistimos, nas últimas semanas, a uma degradação evidente do ambiente político na Figueira da Foz.
E se o ditado diz “quem está de fora, racha lenha”, parece-me evidente que, quando tratamos dos nossos eleitos, principalmente em estruturas de proximidade como os executivos camarários ou as assembleias municipais, o ditado está errado e é, até, cabotino.
É perfeitamente normal existirem divergências pessoais e políticas dentro de um partido e/ou de uma coligação. São grupos compostos por pessoas, cada uma com uma mundividência muito específica, e isso obriga a que todos trabalhem em conjunto, com tolerância pelas diferenças pessoais e ideológicas.
O que assistimos nos últimos dias foi precisamente o contrário.
Assistimos à implosão de um grupo parlamentar municipal, por motivos cujos contornos continuam pouco claros, mas que, objetivamente, revelam uma profunda incapacidade de gerir divergências dentro de uma estrutura política.
E há aqui uma questão que, a meu ver, não pode ser ignorada: os eleitos não se representam apenas a si próprios.
Nas eleições autárquicas, votamos nas listas que consideramos poderem melhor representar-nos no município ou na freguesia.
É verdade que, do ponto de vista legal, um eleito que abandone o partido pelo qual foi eleito não perde automaticamente o mandato. Pode continuar a exercê-lo como independente.
Mas a política não se esgota na legalidade.
Existe também um contrato político e uma relação de confiança entre eleitores e eleitos. E é precisamente essa dimensão política que merece ser discutida.
Quando três eleitos por uma determinada força política abandonam essa força e passam a exercer o mandato como independentes, não podemos simplesmente fingir que nada aconteceu.
As pessoas que os depositaram nas urnas continuam a existir.
E votaram numa determinada lista, com uma determinada identidade política, para uma determinada representação.
Não está em causa discutir o direito individual de cada eleito a tomar as decisões que entender. Esse direito é inquestionável.
Está em causa saber se, politicamente, é legítimo ignorar a vontade expressa nas urnas quando a totalidade da representação eleita decide romper com a estrutura partidária através da qual chegou à Assembleia Municipal.
E esta é uma questão que ultrapassa o Partido em questão.
Porque o problema não é apenas saber quem tem razão nesta disputa interna, quem começou a discussão ou quem teve a última palavra.
O problema é saber o que fazemos com os votos dos cidadãos quando os seus representantes deixam de se reconhecer na força política em que esses cidadãos votaram.
Os 3.589 votos não pertencem aos membros eleitos nem ao Partido votado.
Pertencem aos Figueirenses que os depositaram nas urnas.
E é por isso que a pergunta permanece:
O Que fazer a 3589 votos?
Gonçalo Mano
Porta Voz do Grupo Coordenação Local do Distrito de Coimbra do Partido LIVRE
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