Talvez já não se leiam cartas de amor, mas lêem-se tantas sinas, prometem-se tantas revoluções…
Dizem os entendidos, os comentadores de estúdio e os teóricos do Twitter que a Revolução já começou e nós, leitores desatentos, ainda não nos apercebemos. Anda tudo em sobressalto, em convulsão existencial, com a sensação iminente de que o mundo como conhecemos vai ruir já amanhã. E é logo a seguir ao almoço! Haverá tempo para o descafeinado?
À esquerda, o diagnóstico é categórico: o capitalismo expirou, o planeta está em chamas, o autoritarismo (só o outro) voltou, e a rutura socioeconómica é inevitável. É o fim da história, o fecho da loja, a degradação que agoniza..
À direita, a urgência não é menor: a revolução cultural já foi feita à socapa, as elites dominaram a linguagem, os costumes ruíram e a tradição foi substituída por qualquer coisa decidida num algoritmo ou por um comité central reunido à porta fechada.
Ao centro, a crise é tecnológica e sistémica: a Inteligência Artificial, o colapso do consenso, a classe média sufocada que já não acredita nas instituições.
Somos, de repente (e não assim tão de repente), todos fascistas, todos comunistas, todos capitalistas selvagens, todos escravos do capital. Somos todos lutadores não ouvidos, somos todos frouxos, somos todos neutros - e, por sermos neutros, há quem lhe diga que somos coniventes com o mal -, somos tudo, somos nada, somos bons, somos maus, somos semideuses, somos demónios encapotados e somos algo a que não se pode dar nome, porque talvez não haja semideuses nem demónios - apesar de ser uma negação arriscada.
Somos todos assassinos de alguém, quer por ação, quer por inação. Somos todos o piorio à vista desagradada do descontente que vive do outro lado da rua.
A julgar pelo ruído, devíamos estar todos de capacete posto a erguer barricadas.
E, no entanto, a televisão que aqui se liga é a mesma. Os jornais que não se lêem são os mesmos. As redes sociais que nos servem a indignação-do-dia são rigorosamente as mesmas. As ruas da cidade estão cá, a testemunhar a mesma modernidade cansada que se vê nas capitais. Os problemas das grandes cidades não ficaram à porta da província; moram cá, doem cá e sentimos nos ombros o mesmo peso de com quem lidamos.
Talvez este estado sereno da paisagem seja apenas mentiroso. Talvez a indignação das redes seja um teatro sem público e a tranquilidade das ruas uma encenação por falta de forças.
A máquina-do-presente é belíssima - oferece-nos a luz, a brisa, os sons e os cheiros de uma vida que se quer confortável. Dizem-nos que a máquina existe para ser usada, consumida, vivida. Mas na nossa condição irremediável de porca ou parafuso, perfeitamente ajustados para manter a engrenagem a girar, ficamos impedidos de ver que a própria máquina já grita, engasgada, sem conseguir trabalhar.
A revolução faz-se quando não há alternativa, mas há esperança. E o que falta por cá não é a alternativa; é a esperança comunitária. Sobra a esperança individual - a de levar os filhos à escola a horas, a de caminhar à beira-mar no fim de semana, a de conseguir pagar o lar dos pais, tudo tão caro, tão difícil, tão sem tempo. Mas essa é a esperança de quem tenta apenas não se ver e sentir esmagado pela engrenagem que o esmaga.
Talvez os outros que ocupam as praças e os outros instalados no poder - que não olham para as praças, nem para quem as ocupa - sejam em simultâneo o sintoma da mesma doença: uma revolução que promete existir num gerúndio eterno e uma não-revolução que teima em sentar-se num condicional composto, condicional vencido. Se eu fizesse, se eu pudesse, se eu tivesse, se eu mandasse.
Até podemos estar a viver uma pré-revolução. Até podemos estar, como dizem os porta-vozes das barricadas ideológicas, numa revolução em marcha. Ou pode ser que nada disto seja uma revolução, mas algo tão ou mais violento do que uma revolução, tão ou mais abrangente do que uma revolução, e a Europa esteja a fumegar essa crispação, esse movimento e essa imprevisibilidade.
Mas à minha frente está o rio. Do outro lado do rio, a cidade. À nossa volta, a Figueira da Foz.
E não vejo revolução aqui. Mas também não vejo não-revolução. Vejo os problemas a esconderem-se por vergonha.
Assim, afinal, o Tony de Matos tinha razão sobre o povo romântico, sereno, embalável que somos - que sou. E a vergonha é como as cartas de amor: «Quem as não tem?»
António Carraco dos Reis
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