Disseram-nos desde pequenos: "estudem, tirem um curso, esforcem-se e vão ter uma vida boa". Muitos desses jovens fizeram isso. Estudámos, aprendemos a trabalhar com a tecnologia de hoje e falamos outras línguas. Mas, quando chegou a nossa vez de começar a vida independente, percebemos que as regras tinham mudado. Ser jovem hoje em dia é sentir que a vida está sempre parada, por muito que a gente faça para que isso não aconteça.
A prova mais dura de todas é a falta de uma casa e o peso esmagador que isso tem na nossa carteira. Os dados mostram que ninguém devia gastar mais de 35% do que ganha com a habitação para conseguir ter uma vida equilibrada. Mas basta olhar à nossa volta e falar com muita gente para perceber que isso hoje é uma ilusão. Para muitos jovens e muitas famílias, a taxa de esforço, ou seja, o dinheiro que vai direitinho do ordenado para pagar a renda já chega aos absurdos 70% ou até 80% em muitos dos casos.
Pensem bem no que isto significa na prática. Se uma pessoa ou um casal ganha 1000 euros limpos, 700 ou 800 euros voam logo no primeiro dia do mês só para ter onde dormir. Sobram 200 euros para o mês inteiro. Com 300 ou 200 euros é preciso pagar a água, a luz, o gás, ir ao supermercado (que está cada vez mais caro), pagar o passe ou a gasolina, e ainda rezar para ninguém ficar doente e precisar de ir à farmácia. Isto não é viver, é fazer magia. É sobreviver a contar os tostões todos os dias. E nem digo outros casos que certamente são mais escandalosos.
Sem uma casa que se consiga pagar e sem um emprego seguro, a vida fica em espera. No trabalho, pedem-nos experiência de quem já lá está há anos, mas pagam-nos o ordenado mínimo. Saltamos de estágio em estágio, trabalhamos a falsos recibos verdes ou com contratos precários. Damos o nosso máximo, mas não saímos do mesmo lugar.
Como é que se faz planos assim? Há umas décadas, aos 25 ou 30 anos, as pessoas compravam casa e tinham filhos. Hoje, pensar em ter um filho é quase um ato de loucura. Como é que se traz uma criança ao mundo quando o dinheiro mal dá para nós e não sabemos se para o ano o senhorio nos obriga a sair de casa? Acabamos a adiar tudo. Adiamos sair do quarto de infância, adiamos a família, adiamos a vida inteira.
É por tudo isto que custa tanto ouvir algumas pessoas mais velhas dizerem que somos uma "geração de cristal" ou que "os jovens de hoje não querem trabalhar". É mentira. Queremos ter o nosso canto, queremos ser pais, queremos construir coisas. Mas estamos exaustos de dar o litro a trabalhar a tempo inteiro só para entregar o dinheiro quase todo a um senhorio ou a um banco, sem sobrar nada para vivermos a nossa própria vida.
Bruno Santos - Analista Político
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