Resolvido aquele que parecia ser o grande problema da nação, o conflito entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus, sobreveio um problema bem menos mediático, mas incomparavelmente mais importante: a habitação em Portugal.
Enquanto participante activo no mercado da habitação e espectador atento das realidades políticas e mediáticas, cumpre-me dar os parabéns a quem tomou as rédeas e decidiu ocupar o espaço público de forma ordeira e até festiva, chamando a atenção para o estado verdadeiramente calamitoso em que se encontra um dos direitos consagrados na nossa Constituição.
Já não posso dizer o mesmo dos nossos governantes, nacionais e locais, cujas posturas são verdadeiramente atentatórias do Estado de direito, desde a liberdade de expressão, mas principalmente à liberdade de manifestação.
Tudo fizeram para colar as manifestações em Portugal aos incidentes ocorridos em França e, com a ajuda de alguns órgãos de comunicação social, conseguiram pôr o país a discutir o que é verdadeiramente acessório: a cor do cabelo do activista, o piercing no nariz do manifestante e a orientação sexual de quem canta.
E é aqui que todos nós, sem excepção, ficamos a perder.
Discutir o acessório desvia a atenção daquilo que deveria estar no centro do debate:
Em Portugal, muitos jovens só conseguem emancipar-se aos 30 anos;
Existem fundos imobiliários com centenas de imóveis vazios;
O estado possui um enorme parque devoluto que deveria ser convertido em habitação pública, mas prefere vender para dar lugar a mais hotéis de charme.
Estes são assuntos que deveriam estar a ser discutidos e não o despiciendo.
Por isso, numa próxima vez que ouvirem alguém reclamar do sotaque de quem protesta, desconfiem. É provável que não queira que ouçam aquilo que o manifestante tem para dizer.
Porque a repressão e o desvio das atenções podem hoje ter os jovens como alvo, mas são também um balão de ensaio para futuras restrições das liberdades.
E, quando essas liberdades forem retiradas, já não serão apenas os jovens a perder.
Seremos todos nós.
Gonçalo Mano
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