«Há Qualquer Coisa no Sal» levou uma centena de pessoas a descobrir os mistérios do salgado

O Núcleo do Sal recebeu, no passado dia 31 de outubro, cerca de uma centena de participantes para uma experiência cultural pouco convencional. Sob o sugestivo título «Há Qualquer Coisa no Sal», a iniciativa convidou o público a descobrir o salgado numa perspetiva diferente, através de um percurso noturno onde se cruzaram o mistério, a teatralização, a memória coletiva e as tradições daquele território.
Entre as 18h00 e as 20h00, o espaço transformou-se num cenário de sons, luzes, sombras e personagens inesperadas, proporcionando uma experiência imersiva que surpreendeu os participantes e revelou uma nova forma de conhecer e interpretar o património salícola.
A aventura começou ainda no parque de estacionamento, onde cada participante foi desafiado a escrever os seus medos num pequeno papel. Seguiu-se o encontro com uma figura enigmática, a Senhora do Sal, que conduziu o grupo pelos caminhos do salgado. Em silêncio, à luz ténue de uma candeia, os participantes avançaram noite adentro, deixando-se envolver pela atmosfera misteriosa do lugar.
Ao longo do percurso, diferentes momentos de encenação surgiram de forma inesperada, dando vida a personagens, práticas e narrativas profundamente ligadas à história e à identidade daquele território. Marnotos trabalhavam nas salinas em plena noite, salineiras transportavam o sal e entoavam cantares tradicionais, enquanto vozes, sons de aves, provérbios e dizeres populares ecoavam na escuridão.
Entre as aparições mais insólitas, destacou-se a de um arqueólogo que emergiu das águas, trazendo consigo achados que acreditava serem capazes de lhe conferir o poder de controlar as próprias águas. Uma personagem surpreendente, num universo onde o real e o imaginário se confundiram.
Cada momento foi pensado para evocar, de forma criativa e inesperada, o universo das salinas, os saberes ancestrais, as crenças, as tradições e as singularidades de uma paisagem profundamente marcada pela relação entre o ser humano, a água e o sal.
Noutro ponto do percurso, uma grande fogueira iluminava a noite e convidava os visitantes a sentarem-se para escutar Histórias de Bruxa. Num ambiente de mistério e cumplicidade, chegou então o momento de cumprir o ritual anunciado no início da experiência: entregar os medos. Recolhidos numa cesta, os pequenos papéis foram lançados à fogueira, um a um, num gesto simbólico de libertação.
A experiência prosseguiu no Armazém do Sal, onde houve ainda lugar para uma última surpresa: fotografar as almas, prolongando o ambiente insólito e misterioso que marcou toda a iniciativa.
A própria paisagem do salgado foi uma das grandes protagonistas da noite. A beleza singular das salinas, envoltas na escuridão e iluminadas pelo luar, ganhou uma nova dimensão através dos ambientes sonoros e dos jogos de luz especialmente concebidos para a ocasião. O silêncio, o breu, os sons da natureza e as aparições inesperadas contribuíram para transformar um espaço patrimonial familiar numa paisagem de descoberta, encantamento e surpresa.
Mais do que uma atividade temática associada à noite de 31 de outubro, «Há Qualquer Coisa no Sal» constituiu uma forma original de comunicar o património cultural, dando a conhecer a história, as tradições e as memórias do salgado através de uma experiência sensorial, participativa e emocional.
A forte adesão do público e o carácter diferenciador da proposta confirmaram o sucesso de uma iniciativa que demonstrou o potencial do Núcleo do Sal para acolher novas formas de criação, interpretação e fruição cultural, deixando vontade de repetir a experiência.
A iniciativa foi concebida e concretizada pelas equipas do Museu Municipal, do Núcleo do Sal, do Núcleo do Mar, do Quartel da Imagem e da Biblioteca Municipal, contando com a participação dos elementos do Rancho Folclórico As Salineiras de Lavos e da contadora de histórias Maria José Carvalho, que deu vida à personagem da Bruxa, e contou ainda com o apoio do hipermercado E. Leclerc.

 

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