Este artigo aborda o impacto de eventos climáticos severos ou extremos, na saúde mental das populações. Sendo este um tema sensível e complexo, tentará abordar as linhas gerais e mais salientes de forma informativa e preventiva. Dentro dos eventos extremos, irá abordar o impacto mais relacionado com inundações/cheias e tempestades severas, que incluem os ventos ciclónicos ou furacões, tendo em conta a literatura científica internacional, pela robustez que estas linhas de investigação apresentam.
A literatura científica salienta que este tipo de eventos está relacionado, nas áreas e populações afetadas, com o incremento de doenças ou patologias médico-psiquiátricas, nomeadamente: stress-pós traumático, depressão, perturbações de ansiedade ou pânico, perturbações de sono, perturbações por uso de substâncias, perturbações de adaptação ou “distress” psicológico inespecífico, complicações no processo de luto ou luto prolongado (não apenas com a morte de familiares ou amigos, mas também quando existem perdas significativas de bens, financeiras, emprego ou outras) e aumento de tendências ou ideação suicida.
A explicação para estas relações de causalidade depende da gravidade da situação, da intensidade da exposição a que a pessoa está sujeita durante o evento, da duração do evento ou existência de eventos posteriores, do contexto social, da existência de perdas de bens ou pessoas, das dificuldades financeiras, da necessidade de deslocação ou abandono da área afetada.
Salienta-se que, nem sempre, a exposição direta ao evento é o momento de trauma mais significativo, ou seja, muitas vezes as populações resistem ao evento, através dos mecanismos inatos de sobrevivência, sem desencadear trauma ou o maior trauma. Por exemplo, as situações relacionadas com perturbações de adaptação (“adjustment disorder”) surgem pelo sofrimento e incapacidade ligadas a “stressores” secundários, como a quebra de rotinas na vida da pessoa, o aparecimento de conflitos familiares, o desenvolvimento e desgaste relacionado com processos de seguros, processos de reconstrução dos bens ou a necessidade de deslocação.
A gravidade da perda é equivalente, em alguns casos, a processos de luto prolongado ou patológico com situações de perdas múltiplas de bens, mesmo sem a existência de perda de vidas humanas próximas, mas exatamente pela perda de bens com o significado de uma vida. Também contribui para o agravamento das situações de doença psicológica, a saúde mental dos indivíduos prévia aos eventos, as características sociais e culturais do meio em que se insere e a capacidade de resposta da pessoa e do meio na recuperação após evento.
Convém salientar que algumas das perturbações clínicas já identificadas no texto como sendo as mais relevantes, não devem ser dissociadas entre si, significa que estão muitas vezes interligadas. Por exemplo, a perturbação de Stress-Pós Traumático, a mais referenciada na literatura acerca destes eventos, entre muitos outros sintomas, encerra em si um quadro de extrema ansiedade/pânico, perturbação de sono e depressão associada.
Como atuar ao nível da saúde mental após eventos climáticos extremos? A resposta a estes eventos é complexa, mas, mais uma vez, as diretrizes internacionais convergem na necessidade de que o apoio a estas populações deve ser feito em camadas, do nível mais básico ao nível mais especializado. Tentarei resumir num exemplo o que é um sistema complexo, integrado em pilares que incluem habitação, saúde, proteção social e educação. Isto porque, como referido anteriormente, grande parte do sofrimento psicológico advém de stressores secundários (perda de casa/bens, dívidas, deslocação, burocracia, rupturas familiares e comunitárias). Então:
1 - Deve ser garantida a segurança, necessidades básicas e estabilidade, reduzindo ameaça contínua e incerteza. Portanto, garantir abrigo estável, privacidade mínima, proteção contra violência e exploração. Permitir acesso a água, alimentação, medicação, eletricidade e transporte, com atenção a pessoas com doenças crónicas e necessidades especiais. Devem restabelecer-se rotinas (escola, trabalho, serviços locais) o mais cedo possível, especialmente para crianças e famílias. Devem reduzir-se stressores secundários, garantindo apoio prático para seguros, documentação, reparações, alojamento, benefícios sociais e emprego. A evidência demonstra que estes stressores sustentam o sofrimento por meses ou anos.
2) A comunicação e informação que protege (antes, durante e depois). Esta informação deve ser clara, consistente e repetida. Ou seja, o que aconteceu, o que vai acontecer, como aceder a apoios, e o que é uma reação esperada ao stress. Devem existir mensagens acionáveis (onde ir, o que fazer, linhas de apoio, horários diretos). Devem ser claros quais os canais de comunicação acessíveis (rádio local, sms, os líderes comunitários, escolas).
3) O apoio psicossocial precoce para a maioria: “primeiros socorros psicológicos” e apoio comunitário. Para a maioria das pessoas, o foco inicial não deve ser a terapia formal, mas o apoio humano, prático e de ligação aos recursos. Deve ser cumprido o “Psychological First Aid” / apoio de crise: segurança, acalmar, escuta não intrusiva, ajudar a resolver necessidades imediatas, reconectar a família ou rede e encaminhar quando necessário.
4) Realizar-se intervenções comunitárias e familiares com grupos de apoio, atividades para crianças, espaços seguros, reforço de redes (vizinhança, associações, igrejas), voluntariado organizado.
5) Detetar quem está em maior crise, efetuar triagem através de modelos de cuidados escalonados, com deslocação dos profissionais aos locais e acompanhamento longitudinal.
6) Tratamentos eficazes para perturbações psicológicas instaladas.
7) Por fim, o sétimo ponto desta lista exemplo compilada, salienta a organização e interdependência de todo o sistema, de forma a reduzir lacunas e duplicações.
O impacto ao nível de saúde mental nem sempre está no evento, mas sim nos eventos e lacunas que se seguem. Informar é prevenir.
Paulo Cunha - Psicólogo Clínico
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