O associativismo é frequentemente celebrado como virtude em si mesma. Criam-se associações, multiplicam-se siglas, inauguram-se intenções. Mas o simples facto de existir uma associação não diz muito sobre a sua qualidade nem sobre o seu impacto real. O associativismo só ganha sentido quando é levado a sério - e isso dá trabalho.
Levá-lo a sério implica reconhecer que uma associação não é um palco pronto-a-vestir, nem um pretexto identitário. É uma estrutura intermédia entre o indivíduo e o Estado, feita para responder a necessidades concretas, formar pessoas e criar hábitos de responsabilidade partilhada. Quando falha nisso, transforma-se num adereço social ou num instrumento de autopromoção. No limite transforma-se numa memória que nos dá pena pelo que foi, poderia ter sido ou não é.
Uma associação exige regras, continuidade e compromisso. Exige também conflito interno, debate e aprendizagem institucional. Onde tudo é consensual e informal, raramente há maturidade ou empenho interior. O associativismo fecundo não vive apenas de boas vontades; vive de método, prestação de contas e capacidade de durar para além das pessoas.
Num país habituado a esperar tudo do Estado, o associativismo é muitas vezes entendido como substituto provisório e como hobby cívico. Essa visão castra-o. As associações fortes não competem com o Estado nem o imitam; complementam-no, corrigem-no e, por vezes, obrigam-no a fazer melhor.
Há ainda outro equívoco recorrente: confundir associativismo com militância-momentânea. A militância-momentânea tende colocar iguais a reagirem; o associativismo pode construir além dos quadrantes. Um reage ao problema do dia; o outro cria estruturas que atravessam gerações. Um vive da urgência e da química; o outro da paciente caminhada ao longo do tempo.
Quando o associativismo é levado a sério, forma cidadãos mais exigentes e menos dependentes. Ensina a governar pequenas coisas para se compreender melhor as grandes. Cria hábitos de participação que não se esgotam na opinião nem no protesto. Cria responsabilidade.
Talvez por isso o associativismo sério seja pouco visível. Não produz grande buzz nem resultados imediatos.
Parabéns aos bons dirigentes associativos - felizmente há vários na Figueira da Foz - e aos sócios e amigos que dão sentido ao lado bom desta história: produzem pessoas mais capazes, instituições mais sólidas e comunidades menos frágeis - e isso, embora pouco vistoso, faz toda a diferença.
António Carraco dos Reis
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