Conservatório de Música David de Sousa em defesa do Ensino Artístico Especializado

No próximo dia 12 de março terá lugar em Lisboa uma manifestação nacional em defesa do Ensino Artístico Especializado (EAE) que reunirá escolas, professores, colaboradores não docentes, alunos e famílias.
A concentração terá lugar às 15H30, junto à Doca de Alcântara, com percurso a pé até ao Ministério da Educação.

O Conservatório de Música David de Sousa, que estará representado na manifestação, recorda em comunicado que se transcreve que «o EAE é uma das três vias de educação reconhecidas e tuteladas pelo Ministério da Educação, juntamente com o Ensino Regular e o Ensino Profissional. Todas são financiadas com recursos públicos porque prestam serviço público de educação.
Não se trata de um privilégio sectorial, mas de um mecanismo constitucional que garante o acesso à educação. O financiamento do Ensino Artístico Especializado não constitui um subsídio assistencial, mas sim um instrumento que assegura o acesso dos alunos a uma formação artística reconhecida pelo Estado.
O princípio é idêntico ao aplicado ao ensino regular ou profissional: o Estado financia a educação para garantir a igualdade de oportunidades em todo o país Este modelo não é uma exceção portuguesa. Países como a França, a Alemanha, a Finlândia, os Países Baixos, a Suécia ou a Áustria integram plenamente o ensino artístico especializado nos seus sistemas educativos, assegurando o financiamento público sem a limitação de numerus clausus que hoje restringe o acesso em Portugal.
Nestes contextos, o financiamento acompanha os alunos e a função educativa, independentemente da natureza jurídica da instituição. Contudo, em Portugal, o sistema enfrenta um problema estrutural de financiamento. O valor de financiamento por aluno não tem qualquer aumento desde 2009. Nesse ano, o financiamento situava-se entre 3.150€ e 3.500€ por aluno no Curso Básico de Música. Em 2015, este valor que deveria ter sido aumentado, foi reduzido para cerca de 2.600€ por aluno, e manteve-se inalterado até hoje.
Entretanto, os custos aumentaram de forma muito significativa. A título de exemplo, o salário de um auxiliar de Ação Educativa passou de 485€ mensais em 2015 para cerca de 920€ em 2026, representando um aumento superior a 87%. Importa ainda evidenciar uma desigualdade estrutural no sistema. Para o mesmo ensino artístico especializado, o Estado aplica hoje dois pesos e duas medidas. Nas escolas públicas, o custo médio anual por aluno no sistema educativo situa-se, no mínimo, em cerca de 6.800€ por aluno/ano, valor suportado integralmente pelo Estado. Já no Ensino Artístico Especializado em regime de contrato de patrocínio, o financiamento público para o mesmo Curso Básico de Música é de cerca de 2.600€ por aluno/ano. Isto significa que o Estado financia menos de metade do valor quando o mesmo ensino artístico especializado é assegurado pelas demais Escolas do Ensino Artístico Especializado, apesar de estas escolas serem tuteladas pelo Ministério da Educação e prestarem igualmente serviço público de educação.
Acresce que muitas destas escolas operam em territórios onde não existe qualquer oferta pública de ensino artístico especializado, ou onde a oferta existente é manifestamente insuficiente para responder à procura. Nestes contextos, o Ensino Artístico Especializado não constitui uma alternativa ao ensino público: constitui frequentemente a única possibilidade real de acesso dos alunos à formação artística.
Estamos, portanto, perante uma situação clara de dois pesos e duas medidas no financiamento do mesmo ensino. Perante este cenário, foi recentemente divulgado por uma associação do sector, um alegado aumento de financiamento na ordem dos 20%.
Importa esclarecer que este valor não resultou de qualquer estudo técnico conhecido, não foi previamente discutido com as escolas e é amplamente contestado pelo sector. Na prática, tal atualização corresponderia apenas a recuar 16 anos, aos níveis de financiamento existentes em 2009 - o que é manifestamente insuficiente face à evolução dos custos.
Ademais, numa reunião ocorrida em julho de 2024, este Governo, através da Secretaria de Estado da Educação e perante as associações que representam o sector, reconheceu publicamente a necessidade de aumentar o número de vagas e atualizar o financiamento por aluno, referindo que essas medidas seriam integradas no Orçamento do Estado para 2025. Estamos em março de 2026 e, até à data, nenhuma destas medidas foi concretizada.
Na mesma reunião foi igualmente assegurado que a entrada de novos operadores no sistema apenas ocorreria após salvaguardar a sustentabilidade das escolas já existentes. No entanto, essa orientação também não foi cumprida.
No caso do Curso Básico de Teatro, a situação torna-se particularmente difícil de compreender. Apesar de as escolas terem alertado formalmente o Ministério da Educação para a insuficiência do modelo de financiamento existente, o número de operadores passou de 20 em 2022 para 33 em 2024, mantendo-se o número de vagas financiadas e reduzindo o número de alunos financiados nas Escolas que já estavam a operar, para distribuir essas vagas – já de si escassas - para novos operadores.
Esta decisão diluiu os recursos e fragilizou ainda mais a estabilidade do sistema. Garantir um sistema educativo justo, transparente e sustentável é uma responsabilidade do Estado. Os recursos públicos devem ser distribuídos de forma equitativa, assegurando a continuidade das Escolas e o acesso dos Alunos à formação artística.
Perante este contexto, as escolas e as comunidades educativas do Ensino Artístico Especializado solicitam:

A revisão imediata do financiamento por aluno nos cursos Básico e Secundário de Música, tendo em conta o aumento real dos custos, estimado em cerca de 40%.

O estudo de um modelo de financiamento por turma para os cursos Básico de Teatro e Dança e para o Curso Secundário de Dança, que assegure, no mínimo, a cobertura das cargas letivas docentes.

Caso a revisão imediata do financiamento por aluno não seja possível, o ressarcimento às escolas pelos prejuízos acumulados, a considerar no Orçamento do Estado de 2027.

A criação de um mecanismo de atualização automática do financiamento, indexado à inflação, à evolução salarial e aos custos operacionais.

Publicação urgente da calendarização do Concurso ao Contrato de Patrocínio 2026–2032, garantindo previsibilidade e estabilidade ao sistema.

O Ensino Artístico Especializado forma milhares de alunos em todo o país e constitui um pilar fundamental da educação, da cultura e da coesão social. A sua sustentabilidade é uma questão de equidade educativa e de responsabilidade pública».

COMENTÁRIOS

ou registe-se gratuitamente para comentar.
Critérios de publicação
Caracteres restantes: 500

mais

QUEM SOMOS

O «Figueira Na Hora» é um órgão de comunicação social devidamente registado na ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social). Encontra-se em pleno funcionamento desde abril de 2013, tendo como ponto fulcral da sua actividade as plataformas digitais e redes sociais na Internet.

CONTACTOS

967 249 166 (redacção)

geral@figueiranahora.com

design by ID PORTUGAL