Voluntariado sim, voluntarismo não

Hoje escrevo sobre voluntarismo (diferente de voluntariado) e o cuidado pelas pessoas.
A generalidade dos seres humanos tem defesas, como a maioria dos seres vivos. Estas defesas, fisiológicas, biológicas ou psíquicas, transmitidas quer geneticamente quer pelas componentes educacionais e ambientais, permitiram-nos a todos chegar aos dias de hoje. Permitiram-nos sobreviver, crescer, evoluir sempre assentes num processo de adaptação.
Grosso modo, de forma grosseira mesmo, as grandes diferenças entre um animal domesticado e um animal selvagem assentam nos seus instintos de sobrevivência. Assentam na capacidade de qualquer ser vivo ser autónomo a procurar abrigo face às condições ambientais extremas, procurar alimento e arranjar um grupo de pertença que lhe possa oferecer proteção face a outros predadores.
O processo de sobrevivência do ser humano passa pelas mesmas premissas.
Falarei do exemplo dos refugiados da Ucrânia. Estas pessoas têm de sobreviver a uma guerra, separar-se bruscamente de quem mais gostam, deixar o seu abrigo e passar por um conjunto de situações traumáticas. Ao chegar à fronteira poderão sentir algum alívio e iniciar novos eventos potencialmente traumáticos. Terão que lidar com o facto de serem colocados num outro local que não o seu, com uma cultura diferente, diferentes mentalidades, escolas, profissões. Estas pessoas vão ter de iniciar um novo processo que não pediram para iniciar, em locais e com pessoas que não pediram para conhecer. A ajuda ao povo Ucraniano, na qual mais uma vez o nosso país tem sido exemplar, quer em termos de órgãos de estado quer através da população, traz-me uma enorme preocupação: o voluntarismo.
Esta necessidade de agir, que por vezes se sobrepõe à competência para tal e à própria racionalidade, pode acarretar um efeito inversamente proporcional ao que se pretende atingir.
Nem sempre é fácil perceber o que o outro precisa, porque muitas das vezes esta identificação passa por nos projetarmos no lugar do outro. Podemos quanto muito imaginar como o outro se sente na sua condição, mas sempre sob a nossa perceção. É esta perceção que vai, no entanto, condicionar o nosso voluntarismo e é aqui que tudo pode correr mal. Ajudar os outros com base na nossa perceção pode acarretar processos de aculturação, instabilidade e sofrimento psicológico.
Neste processo de apoio e assistência ao ser humano, foi uma enorme conquista das duas últimas décadas o trabalho multidisciplinar, em rede. Dito de outra forma, ser proporcionada ajuda diferenciada, com diferentes fontes de conhecimento, proporcionando a quem necessita um desenvolvimento tão integral quanto possível.
Este trabalho em rede, assente em conhecimento científico, traz consigo estudo, conhecimento empírico, estudos de caso, reflexão e regras de atuação, sobretudo a intervenção mínima (uma regra na qual se intervém de forma suficiente a proporcionar a ajuda necessária sem colocar em causa a autonomia, o desenvolvimento e as forças do ser humano que ainda proporcionam equilíbrio).
Todos nós já passámos por momentos de sofrimento, já experienciámos a necessidade de estarmos sozinhos.
Nós, psicólogos, conhecemos bem estas duas premissas da intervenção: o respeito pelo espaço e o silêncio. Sabemos também que não se devem iniciar certas intervenções que depois não podem ter continuidade. Ninguém tem o direito de escolher o caminho de vida para outra pessoa e depois abandoná-la num caminho que não é o seu.
Se estiver a pensar ajudar alguém, informe-se junto de um profissional de saúde mental, estabeleça contactos com instituições que fazem estes trabalhos, contacte as instituições no terreno para perceber o que já foi feito e pondere bem a sua disponibilidade para dar continuidade à ajuda ao longo do tempo, se tal for necessário. Não abandone quem precisa, depois de lhe dar esperança.
Estarão as entidades empregadoras preparadas para realmente integrar?
Estarão as escolas que se dizem disponíveis para receber preparadas para não excluir?
As instituições não podem repetir erros passados.
Não sejamos voluntariosos, sejamos voluntários desta causa.
Sim vamos integrar e ajudar, mas sem estragar.

(PAULO CUNHA - Psicólogo e Coordenador da Mental School)

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