Mau tempo: Caudal do Mondego estabilizado, mas Ereira teme pelos próximos dias

Ereira é uma pequena ‘ilha’ no vale do Mondego

O caudal do rio Mondego entre Coimbra e Montemor-o-Velho estabilizou na manhã de hoje, com os campos agrícolas em redor alagados, mas a população da aldeia da Ereira teme pelos efeitos da chuva dos próximos dias.
Habituada, desde sempre, às cheias, a Ereira é uma pequena ‘ilha’ no vale do Mondego, situada entre o leito central e o chamado leito abandonado do rio. Quando estes sobem, se transbordam, a história repete-se: a água chega às casas, o medo apodera-se de muitos e as memórias regressam, pelo menos, a 2001, com as marcas da altura dessa cheia de há 25 anos guardadas para sempre nas paredes de um café da aldeia, na igreja e nas fachadas de habitações.
No entanto, por estes dias, com a água por perto e as autoridades a repetirem avisos, o tempo é de precaver males maiores. Num terreno com vista para a povoação, Ricardo Maltez e Ricardo Santos afadigam-se a retirar da orla do campo fardos de palha em rolo, que servem para alimentar animais.
Trabalham, ambos, para a empresa agrícola de Vítor Martinho, produtor do Arroz da Ereira. Ricardo Maltez denota destreza na função que hoje lhe está atribuída: aos comandos do trator, avança pela água e lama, e recolhe, um de cada vez, os enormes fardos de palha.
“Não sabemos o que vai acontecer nos próximos dias, com a chuva que aí vem. Para mim o pior vai ser entre segunda e terça-feira, mas isto nunca se sabe. Sabemos é que está tudo cheio de água e se mais água vier, não sei como vai ser”, disse à agência Lusa Ricardo Maltez.
No largo da Ereira, junto à igreja e à piscina fluvial ali existente, três amigos estão à conversa e os temas adivinham-se: a água que enche os campos, o Mondego cheio, por onde mais água corre, veloz, a estação de bombagem a jusante e a preocupação se a obra hidráulica – erguida entre 1978 e 1992 precisamente para controlar as recorrentes cheias – volta a aguentar, desta vez como em 2016, os maus fígados do rio.
Se em 2001, posta à prova pela primeira vez, correu tudo mal, e os diques partiram em 12 locais, em 2019 teve tudo para correr bastante mal outra vez, mas o dique do leito central ‘só’ quebrou num ponto (e na margem direita, do lado contrário à correnteza urbana da margem esquerda), embora os entendidos garantam que basta um rebentamento para que a obra hidráulica deixe de garantir a devida proteção.
“Em princípio está tudo controlado, até deixar de estar, já sabemos como isto é”, ironizou Joaquim Filipe, embora dizendo esperar que os diques (as margens do canal central do Mondego) não partam.
“E se a barragem [da Aguieira] descarregar muito, a água vem toda por aí abaixo”, completou Humberto Vicente.
Na rua principal da baixa da Ereira, a reportagem da Lusa encontrou ainda o senhor Eugénio, de 86 anos, que não disfarçou o receio que o vem afligindo.
“Eu estou com medo, temos sempre receio. É tanta água, que algum problema que haja para lá [na zona a montante do rio, acima de Coimbra] venha tudo até aqui e a gente fique aqui afogados, o meu receio é esse”, exclamou.
Na fronteira de Montemor-o-Velho com o município vizinho da Figueira da Foz, mantêm-se a paisagem de campos agrícolas alagados e transformados em lagos, com estruturas de rega submersas, caminhos e estradas cortadas.
A municipal 601 que liga, para sul, o nó da autoestrada 14 (A14) à Ereira, junto à capela de Santa Eulália, há muito que desapareceu sob as águas. Para oeste, outra via cortada, a das Pontes de Maiorca, na antiga estrada nacional 111, em direção à vila com o mesmo nome.
Ali, ao final da manhã de hoje, apesar da proibição, um automobilista terá tentado passar, já a água era mais do que muita: resultado, o carro ficou-se ali mesmo e acabou auxiliado por meios dos bombeiros de Montemor-o-Velho. ´
Ouvido pela Lusa, José Veríssimo, presidente da Câmara de Montemor-o-Velho mantém o registo tranquilo, manifestando confiança de que, desta vez, a obra hidráulica vai funcionar e que a gestão controlada que tem sido realizada no caudal do Mondego dê frutos.
A meio da manhã, José Veríssimo, acompanhado de representantes de outras entidades, sobrevoou de helicóptero o seu concelho, o de Soure e o de Coimbra.
No final do voo, o veredicto era animador: “O rio está estabilizado, há muita água, mas os caudais estão controlados”, revelou.
Na tarde e noite de quinta-feira e na madrugada de hoje, a ausência de chuva – que, entretanto, já voltou a cair, a espaços, no Baixo Mondego – também ajudou às autoridades a gerir os caudais: o débito de água na Ponte-Açude de Coimbra estava nos 1.400 metros cúbicos por segundo (m3/s) às 16:00 de quinta-feira, foi subindo gradualmente até perto dos 1.800 m3/s ao longo da noite, mas, esta manhã, já tinha recuado para os 1.326 m3/s (ainda assim, 1,32 milhões de litros de água por segundo), com tendência para continuar a baixar.

Texto: José Luís Sousa (Lusa)
Foto: Junta de Freguesia de Ereira (arquivo)

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