Nesta manhã de domingo - antes de seguir para um destino que não sei se o tem - cruzo, aqui no Cabedelo, o meu olhar com o barco que faz a travessia habitual entre as duas margens do Mondego e, na sobreposição das imagens, sobressai aquela outra, castanha escura, - nítida, quase palpável - da réplica da Nau Victoria que visitou a Figueira ontem e hoje.

A embarcação visitou a cidade tal como nós visitamos pessoas e locais: talvez não tanto para sermos nós a vê-los, mas para sermos visitados por eles, pelas emoções, pelas experiências, pelas informações ou pelas ideias que nos dão conhecer e a viver e nos suscitam no caminho intermédio entre nós e eles.
Poderíamos ser pragmáticos e desatar a pensar que se trata apenas de uma embarcação a cumprir um mero expediente de navegação, com propósitos estritamente culturais ou económicos - e pode ser que seja. Mas façamos o favor de dar um passo atrás nesse pragmatismo que nos interrompe por ali. Essa embarcação que ali vejo é assumidamente uma réplica, construída em Espanha para a Exposição Universal de Sevilha de 1992. No plano físico, transporta-nos a esse ano, para essa Feira; mas no plano simbólico, atira-nos direta e vertiginosamente para os anos de 1519 e 1522 - a realidade dura e pisada por Fernão de Magalhães. Daquela armada de cinco navios que partiu para rasgar uma linha obstinada à volta do globo, apenas a Victoria conseguiu regressar a porto seguro, tornando-se a única sobrevivente e o símbolo maior dessa travessia.
Essa circum-navegação foi uma empreitada notável, fundamental e muito menos perecível do que a própria nau "original", que se perdeu nas brumas da História. Mas o que será isto da nau "original"? E o que será, afinal, esta circum-navegação?
Esta reflexão leva-nos um pouco mais longe do que a simples revisita ao velho paradoxo da identidade que nos recorda o navio de Teseu. Sabemos bem que, se a nau "original" tivesse subsistido ao longo do tempo - desde o século XVI até ao nosso século XXI - , eventualmente todas as suas madeiras teriam sido substituídas, assim como os seus cabos, as suas velas e os seus instrumentos. Teríamos enganado a vida, teríamos navegado no chronos, teríamos feito o impossível para manter uma forma e um nome.
Mas pergunto-me: o que é mais importante, o nome ou a forma? Alguma ingenuidade apressada, que talvez eu também a tenha, dir-nos-ia que ambos contam menos do que a substância, porque a substância, essa sim, é imutável. Será? Não sei o que pensar.
A réplica da Victoria - seja esta de 1992, seja aquela que resultaria da conservação mítica e incessante da "original" - serve para muito mais do que flutuar sobre as águas, resultar em boas fotografias, relembrar os visitantes ou ensinar história às comunidades. Serve sobretudo para nos lembrarmos que houve outrora força, recursos e um empenho titânico dedicados à construção de uma balsa (além das outras quatro, além dos milhares de outras) que serviu para conhecer o mundo exterior, é certo. Mas não sei quantos mundos Fernão de Magalhães conheceu por dentro enquanto conhecia o nosso por fora. Da mesma forma, pergunto-me quantos mundos poderemos, nós, conhecer dentro de nós próprios se nos dedicarmos a uma verdadeira circum-avegação interna.
Podemos não ser Fernão de Magalhães, podemos não dispor de uma nau vistosa, construída segundo os mais rigorosos preceitos da carpintaria naval do século XVI. No entanto, estou convicto de que o esforço para percebermos que não somos um planisfério estático e estúpido, - e que os nossos extremos se tocam numa continuidade infinita - valerá a pena para cada um de nós. Será uma viagem certamente menos onerosa do que aquela que empenhou as coroas que investiram nela, mas será, sem dúvida, uma viagem muito mais proveitosa para a vida real que cada um de nós tenta viver.
Porque as naus verdadeiras não são feitas de madeira, seja de pinho ou de carvalho. As naus são feitas de vontade, de trabalho e de medo. Da mesma forma, creio que nós próprios somos feitos exatamente dessas mesmas matérias. Quão cara será, afinal, a viagem para conhecermos o nosso próprio globo interior, sabendo que, bem mais perto do que estaria o mar navegável para Magalhães, se estende, para dentro, um oceano interno - repleto, decerto, de tormentas e de baías paradisíacas?
Ao lado do globo que cada um é, daquilo que cada um tem e traz consigo, orbitam vários outros globos que os outros são. A dança que nos mantém conectados é, no fundo, uma dança da gravidade, uma mútua dependência (quase inexplicável, e por isso tão bela, misteriosa e tremenda) que só se torna proveitosa quando aceitamos ceder o leme a quem nos visita.
Para evitar o naufrágio - como o das quatro outras naus que não regressaram - , talvez seja estritamente necessário conhecermos bem as nossas próprias geografias, as tormentas, as nossas baías secretas, a profundidade dos nossos oceanos privados e a firmeza da terra seca que também somos.
Visitar a réplica da Victoria é um ato de curiosidade seguro; não é minimamente provável que afunde no porto da Figueira da Foz. Mas pode e deve ser um ritual de lembrança e de introdução: o pretexto perfeito para arriscar visitar a nau que o outro tem, para ousar navegar na embarcação que o outro nos cede, com a certeza reconfortante de que nos temos bem cartografados para quando formos, por nossa vez, visitados.
A verdadeira vitória não reside em dobrar os cabos do mundo, mas em aprender a navegar a própria alma sem desistir pelo medo da bruma. As naus não são feitas de madeira. São feitas de vontade, de trabalho e de medo. E nós, por nossa conta, continuaremos a navegar.
António Carraco dos Reis
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