OPINIÃO: O SIRESP, o Starlink e a tempestade Kristin entram num bar…

Assistimos recentemente à adesão praticamente em massa de municípios e juntas de freguesia ao sistema de comunicações Starlink.
Este voluntarismo, ainda que genuinamente altruísta e orientado para a proteção das comunidades, revela duas falhas sistémicas que muito nos deveriam preocupar.

A primeira, mais evidente, é a falência da confiança no SIRESP.
Mil milhões de euros depois, continua a não ser uma fonte fiável de comunicações de emergência.

E ninguém sabe se alguma vez o será.

A segunda, bem mais perniciosa, é esta crescente dependência do sistema Starlink.
O Starlink, como é sobejamente conhecido, pertence à SpaceX, empresa do empresário Elon Musk.
Musk mantém uma ligação política praticamente umbilical com o atual Presidente norte-americano, Donald Trump, num contexto de crescente entre estes enormes interesses económicos e a actual administração dos Estados Unidos.
Se estes evidentes sinais de corrupção são um problema que os americanos terão de resolver internamente, a orientação política e ideológica que Trump representa é um problema que nos afeta diretamente e diariamente.
A família política e ideológica de Donald Trump manifesta uma profunda hostilidade aos princípios democráticos, à solidariedade entre Estados e ao projeto comunitário que a União Europeia representa.
No grande jogo das esferas de influência, uma Europa fragilizada ficaria sob a alçada dos interesses de Moscovo e de Vladimir Putin, com quem Trump mantém uma ligação bizarramente próxima.
E é precisamente aqui que se torna perigoso ficarmos dependentes de um sistema como o Starlink para assegurar as nossas comunicações de emergência e resposta a catástrofes.
A Ucrânia é um exemplo particularmente elucidativo. As suas forças armadas dependem significativamente do Starlink e do Starshield, a vertente militar de comunicações por satélite associada à infraestrutura da SpaceX.
Em 2025, a possibilidade de cortar o acesso ucraniano ao Starlink foi utilizada como instrumento de pressão política nas negociações com Washington.
Mais recentemente, restrições ao funcionamento do Starshield voltaram a afetar diretamente as capacidades operacionais e defensivas da Ucrânia. Condicionada a aceitar um plano de paz que lhe é manifestamente prejudicial.
Sendo a UE um adversário ideológico da administração Trump, o que nos garante que Elon Musk, perante uma situação de conflito latente ou aberto, não poderá limitar ou desligar o Starlink, deixando desprotegidas as nossas cidades e freguesias?
Esperar o melhor e preparar o pior deveria ser o princípio orientador das nossas forças políticas e da Proteção Civil.
Colocarmo-nos nas mãos de um ator privado, com interesses económicos próprios, e alinhamentos políticos questionáveis deveria constituir motivo de séria preocupação para Portugal e para a União Europeia.
A tempestade Kristin expôs fragilidades.
O SIRESP voltou a levantar dúvidas.
O Starlink surgiu como solução.

Mas uma solução de emergência não pode transformar-se numa dependência estratégica.

Numa próxima ocasião, podemos dar por nós às escuras, dependentes dos apetites dum oligarca e duma administração Americana corrupta.

Gonçalo Mano

COMENTÁRIOS

ou registe-se gratuitamente para comentar.
Critérios de publicação
Caracteres restantes: 500

mais

QUEM SOMOS

O «Figueira Na Hora» é um órgão de comunicação social devidamente registado na ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social). Encontra-se em pleno funcionamento desde abril de 2013, tendo como ponto fulcral da sua actividade as plataformas digitais e redes sociais na Internet.

CONTACTOS

967 249 166 (redacção)

geral@figueiranahora.com

design by ID PORTUGAL