Esperar. Natal.

Faltam duas semanas para o Advento. Falta pouco mais de um mês para o Natal. O Advento provém da palavra latina adventus, que significa chegada, e veste-se liturgicamente de roxo, com exceção do seu terceiro domingo. Este tempo é essencialmente um tempo de espera - não como atitude de estar parado enquanto o tempo passa, mas de espera como período ativo de preparação.

Há esperas menos iguais do que as outras. Há chegadas mais extraordinárias do que outras. Há, também, esperas e chegadas de algo que não vem de forma inédita - mas nem por isso deixam de ser especiais. É possível esperarmos por algo que já vimos, por algo que já tocamos, por algo de que já sentimos o perfume e até o sabor. É possível esperarmos por algo cujo som conhecemos melhor do que qualquer outra coisa. Algo ou alguém. Podemos ter experienciado tudo isso, podemos ter feito todas essas coisas. Mas isso não significa que se tenha chegado.

Da mesma forma, já vimos o Natal em muitos lados, já o ouvimos, já lhe sentimos o perfume e até o saboreamos. Certamente já tocamos no Natal este ano: seja nos enfeites da casa ou do trabalho, seja num presente que ponderamos comprar para alguém especial, seja nesse mesmo presente que talvez não venhamos a comprar. Já o vimos, já o ouvimos, já o cheiramos, já o saboreamos, já lhe tocamos. Mas o Natal ainda não chegou.

É certo que o Natal, comparado a outras esperas, ostenta duas virtudes: a primeira é que todos sabemos quando chega; a segunda assenta na máxima de que «o Natal é quando o homem quiser». Mas só é possível aceitar que o Natal é quando o homem quiser se acreditarmos, de forma simpática, que ele é apenas aquilo que simboliza.

Estamos todos num tempo de espera. Quanto mais importante é a chegada pela qual ansiamos, maior o nosso empenho e a nossa preparação. Para os crentes, talvez a chegada que dá significado ao Natal seja a mais importante de todas, pelo menos em teoria. Ou, talvez a mais importante também aconteça no Natal: seja ela a família, a partilha, o carinho ou o reencontro.

Quando estamos à espera no sentido ativo, quando nos preparamos para a chegada, fazemos tudo o que nos é possível para que ela aconteça bem. Ordenamos as nossas casas, ordenamos as nossas vidas, perfumamos o ambiente e a nós próprios. Garantimos que cada detalhe, da porta de entrada ao canto mais improvável, seja como os-chinelos-mais-confortáveis, quentinhos e que nos esperam em casa, que asseguram bem-estar e proteção contra o frio - seja o frio do chão, o frio do ar ou o frio da alma. No Advento, somos desafiados por uma espera dificultada, que ocorre num final de outono tão severo quanto o inverno.

O sofrimento inerente a esta espera, a esta preparação carregada de querer, habita, a meu ver, também no roxo. Lembremo-nos de que o roxo é igualmente a cor dominante da Quaresma. Esta sabedoria simbólica ancestral que herdámos faz-nos refletir: esperar e deixar o tempo passar não são a mesma coisa. Esperar é fazer-preparação. E preparar tem custos - custos insignificantes quando comparados com a alegria da chegada, mas profundamente significantes para quem os suporta.

Quando a chegada é tão importante que fazemos o possível para que nada falhe, muitas vezes o conforto que providenciamos ao outro é aquele que negamos a nós mesmos. A isso eu chamo, mais do que ternura ou altruísmo - ainda que também o sejam - , amor. Como escrevemos em janeiro: o amor como a escolha de colocar o outro à frente. No Natal, o outro é Um. Podemos relativizar e encontrar vários “uns” para esse Outro. Mas aquilo que aprendemos é que para uma chegada importante é precisa a espera. E a espera exige preparação. Há chegadas que parecem que nunca vêm. Há esperas que tardam em findar. A preparação deve ocorrer tanto em função da chegada como na natureza de quem recebe.
Essa dignidade que procuramos oferecer deve habitar no receptáculo antes da vinda do dom - para que não seja artificial.

Quanto ao tempo da espera, esse aparente castigo, é, para mim, como o amor: uma decisão. O Advento, o Natal, o sol renascido e o verdadeiro calor estão a caminho. Chegarão não apenas porque têm de vir, mas porque tudo chega para quem sabe Esperar.

António Carraco dos Reis

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