As salinas da Morraceira guardam, nestes outonos severos, um espelho de água lisa onde o céu cinzento se deita consigo mesmo. Ontem, na caminhada que por lá fiz, o silêncio da terra batida e o salitre a estalar sob as sapatilhas orquestravam o tom da marcha: o de uma lentidão pensativa, mastigada pelo frio.
Foi então que os vi. Debruçado sobre a lama empobrecida e baça, um flamingo esgravatava a água com o seu bico curvo. A plumagem, esbatida pela escassez de alimento que esta altura do ano oferece, exibia um rosa pálido, um branco sujo de sombras avermelhadas, gasto, quase fantasmagórico - a imagem viva de quem se resigna à fome que a charca lhe concede.
Pouco depois, rasgando o ar, pesado com a gravidade de quem transporta uma arquitetura inteira às costas, um cisne descia do alto - e não dois, como todos os poucos outros que por lá, nesta altura do ano, eu vira chegar em cumplicidade.
A aterragem na grande piscina da salina fez-se com uma aparente leveza, mas o embate na água revelou o peso exato de uma exaustão estabelecida. As asas brancas recolheram-se devagar, dobrando-se sobre a penugem como um fardo que já não se sabe onde arrumar. O cisne inclinou o pescoço e olhou-se ao espelho da água, mas só se viu a si mesmo, olhou à volta, para cima, procurando o que sabia que não ia ver. Pareceu-me um gesto recorrente, até familiar. Sem espanto, voltou o bico para baixo e fechou-se na sua rota invisível, sem olhar mais nada.
O flamingo, erguendo o pescoço sinuoso, fitou o recém-chegado com a curiosidade morna de quem conhece o estuário.
- Vieste de muito longe, forasteiro? - perguntou o flamingo, quebrando o gelo do silêncio.
- De mais longe do que o horizonte permite ver - respondeu o cisne, sem desviar os olhos do próprio reflexo.
- E trazes as asas arqueadas pelo peso porquê? A água aqui é fria e o alimento não é tão abundante quanto gostaríamos.
- Porque trago comigo um verão inteiro e não soube deixá-lo.
O flamingo suspirou, aborrecido, balançando o bico na lama:
- Vejo bem que sim. Mas aconselho-te a serenar. Talvez devesses compreender que não és cisne pela altivez da chegada, pela companhia que tens, nem pela opinião de quem te rodeia. És um cisne porque tu és cisne. O teu mérito habita no teu próprio contorno, e dentro dele, independentemente de a água estar vazia ou cheia, independentemente de estares a falar com um flamingo, com outro cisne, ou contigo.
O cisne esticou o pescoço, sem deixar de olhar o reflexo baço na água espumosa, onde a brancura das penas contrastava com a ferrugem da terra.
- Não sabes o que dizes. Olha ali o teu bando. Vai...
- Eu não sou o meu bando. - reclamou o flamingo.
- Se não és devias pensar em ser. - disse o cisne com uma certeza chata.
- Se isso é assim, porque é que não trazes o teu? És o primeiro cisne que vejo por aqui, que não traz outro arrogante para serem dois.
- Vai ter com o teu bando. Quero descansar.
- Não és tu quem decide para onde vou. Da mesma forma que parece que és tu quem decide para onde vais ser cisne.
Começou a chover.
- Adorava conseguir ver essas tuas palavras como verdade - respondeu o cisne, com a gravidade de quem não escolhe fingir. - Adorava olhar para o teu conselho e aceitar que a chuva pode chover por si mesma, para si mesma. Mas ainda não consegui. Para mim, a chuva só se cumpre se chover porque o frio lhe deu peso, se chover na terra de onde tornará a subir, se for entregue àquela sede que nasceu para saciar, naquele tribunal soberano que eu próprio escolhi para me julgar. Fora daí, a chuva é apenas água que cai, como nós. Coisas que voamos temporariamente, sem propósito maior, que migramos na teimosia de achar que encontraremos um lar.
O flamingo deu dois passos lentos na lama e murmurou:
- Lá chegaremos... Há-de vir o dia em que o peso cede.
O cisne abriu ligeiramente as asas, num gesto de exaustão altiva que recusava a rendição, e respondeu com um sorriso triste, preparando-se para uma corrida que virá, nos próximos dias, para voltar para a vastidão cinzenta:
- Oxalá. Tem um bom fim de semana no teu bando.
Estava frio e molhado. Deixei os dois conversarem juntos, de pé, sobre a solidão de cada um. E juntei-me a eles no regresso a casa, caminhando ao lado do espelho de água salpicado pela precipitação, onde tantos outros pássaros descansam e se alimentam, sabendo que para certas aves a única rota possível é aquela que conduz diretamente ao fogo.
António Carraco dos Reis
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