Portugal e Espanha celebram património comum com novas Jornadas da Raia

A terceira edição das Jornadas «Atravessando a Raia / Cruzando La Raya 2026», organizada este ano pela Turismo Centro de Portugal, foi apresentada hoje em Figueira de Castelo Rodrigo.
Entre 30 de outubro e 8 de dezembro, a iniciativa promove a gastronomia, a cultura e as tradições dos territórios fronteiriços, com um programa que inclui mototurismo, exposições, debates e música

As regiões Centro de Portugal, Porto e Norte de Portugal e Castela e Leão voltaram a unir esforços para valorizar o património, a gastronomia e as tradições dos territórios fronteiriços. A terceira edição das Jornadas «Atravessando a Raia / Cruzando La Raya 2026», apresentada hoje em Figueira de Castelo Rodrigo, propõe um programa de experiências turísticas e culturais dos dois lados da fronteira, entre 30 de outubro e 8 de dezembro.
 
A iniciativa, coordenada este ano pela Turismo Centro de Portugal, resulta de uma parceria com a Turismo do Porto e Norte de Portugal e a Junta de Castela e Leão. O objetivo é dar a conhecer a riqueza de territórios que partilham séculos de história, tradições e relações de proximidade, transformando esse património comum num fator de atração turística e de desenvolvimento económico.
 
A apresentação decorreu no Salão Nobre da Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo e contou com as intervenções de Carlos Condesso (presidente da Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo), Rui Ventura (presidente da Turismo Centro de Portugal), Ignacio Sicilia Domenech (diretor-geral de Turismo da Junta de Castela e Leão) e Marco Sousa (diretor do Departamento Operacional do Turismo do Porto e Norte de Portugal).

Um território que deixou de separar para passar a unir
 
Na sua intervenção, Rui Ventura destacou o potencial turístico dos territórios da raia, defendendo que a história comum de Portugal e Espanha, marcada durante séculos por conflitos e divisões, constitui hoje uma oportunidade para aproximar os dois países e atrair novos visitantes.
"Cada vez mais temos de dar a conhecer o potencial que existe na raia. Aquilo que em tempos nos separou, hoje aproxima-nos. Os castelos que nos separavam são agora o nosso património, de um lado e do outro da fronteira", afirmou o presidente da Turismo Centro de Portugal.
Para Rui Ventura, é precisamente essa herança histórica, que inclui as antigas fortificações, as memórias do contrabando e as relações entre as comunidades fronteiriças, que pode conferir uma identidade turística diferenciadora a estes territórios. "Nós não temos vergonha do passado, ele aconteceu. Hoje ultrapassámos tudo isso, somos amigos. E podemos contar a história. Podemos fazer com que este território da raia seja um território completamente diferenciador", salientou.
O presidente da Turismo Centro de Portugal sublinhou que esta autenticidade corresponde às novas tendências da procura turística internacional. "Cada vez mais, o turista internacional procura este tipo de turismo: um turismo tranquilo, seguro, que conte a história de um território. As pessoas vêm à procura dessa experiência única, memorável, que levam daqui para fora", afirmou.
Rui Ventura considerou também que as Jornadas da Raia representam uma oportunidade concreta para dar maior visibilidade turística aos territórios do interior e contribuir para o seu desenvolvimento. "Fala-se muito de coesão territorial, e a coesão territorial é isto: dar visibilidade aos territórios, potenciá-los, aproveitar os recursos que têm à disposição para que cada vez mais turistas venham até aqui", defendeu.
Neste contexto, apelou ao reforço da cooperação entre as três regiões, considerando essencial desenvolver uma estratégia conjunta de promoção turística internacional. "Queremos criar esta sinergia da grande plataforma ibérica e vendê-la ao mundo. E vendê-la só conseguimos em conjunto", afirmou
O responsável lembrou, a terminar, que a localização geográfica das três regiões constitui uma vantagem para a captação de visitantes internacionais, permitindo organizar circuitos turísticos que ultrapassem as fronteiras administrativas. "O Centro de Portugal tem 100 municípios. Vamos até às portas de Lisboa e quase às portas do Porto. Mas temos três aeroportos que nos servem: Lisboa, Porto e Madrid. É isto que temos de trabalhar, obrigatoriamente. E assim ganhamos todos", concluiu.
 
Esta visão foi partilhada por Ignacio Sicilia Domenech, que defendeu uma estratégia de promoção turística conjunta, capaz de apresentar Castela e Leão, o Centro de Portugal e o Porto e Norte como um destino integrado.
"Temos o património, as pessoas, a cultura, as tradições, a história e a gastronomia. Temos tudo. O que precisamos é de unir estes recursos e sair juntos para os promover como um único destino turístico", afirmou o diretor-geral de Turismo da Junta de Castela e Leão.
O responsável espanhol destacou a importância de desenvolver circuitos internacionais que permitam aos visitantes circular entre os três territórios, utilizando os aeroportos de Madrid, Porto e Lisboa como portas de entrada e saída. Defendeu igualmente o envolvimento dos operadores turísticos, das empresas e dos produtores locais, para que o crescimento da atividade turística se traduza em oportunidades económicas e na criação de condições para fixar população.
 
Também Marco Sousa reafirmou o compromisso do Turismo do Porto e Norte com o aprofundamento da cooperação transfronteiriça. "Queremos valorizar o que temos em comum, queremos trabalhar juntos e aproveitar as sinergias de um território já sem fronteiras", declarou.
O representante do Porto e Norte salientou que as Jornadas traduzem uma estratégia de valorização da cultura, da gastronomia, da natureza e das tradições locais, reforçando a capacidade de atração turística dos territórios de baixa densidade. Destacou ainda a excelente relação de cooperação existente entre as entidades regionais de turismo do Porto e Norte e do Centro de Portugal, que têm desenvolvido iniciativas conjuntas de promoção turística.
 
Antes, o anfitrião Carlos Condesso agradeceu a escolha de Figueira de Castelo Rodrigo para acolher a apresentação, destacando a localização estratégica do concelho, no encontro dos territórios das três regiões envolvidas. "Temos o turismo do silêncio, o turismo que é feito em segurança, um turismo que tem autenticidade. Quem nos visitar nestas jornadas vai poder degustar aquilo de melhor que se faz ao nível gastronómico dos dois lados da fronteira", afirmou o autarca.
 
 Gastronomia, mototurismo, património e música dos dois lados da fronteira

As Jornadas Gastronómicas constituem um dos principais eixos da programação da iniciativa. Entre 30 de outubro e 8 de dezembro, restaurantes portugueses e espanhóis aderentes vão convidar os visitantes a descobrir receitas tradicionais dos territórios raianos, valorizando os produtos locais e os vinhos das regiões participantes.
 
A gastronomia é, contudo, apenas uma das propostas de um programa que procura revelar diferentes dimensões da identidade cultural e turística da fronteira.
 
Entre 30 de outubro e 23 de dezembro, a localidade espanhola de Sobradillo, na província de Salamanca, acolhe a exposição etnográfica "Ritos e Rituais de Inverno na Raia", dedicada às tradições populares associadas às mascaradas e aos caretos, manifestações culturais que permanecem vivas em diferentes comunidades portuguesas e espanholas.
 
O mototurismo volta também a integrar a programação, com percursos entre os dois países previstos entre 5 e 8 de novembro, convidando os participantes a descobrir paisagens, localidades, miradouros e elementos patrimoniais da região fronteiriça. A iniciativa pretende valorizar estradas e percursos menos conhecidos e estimular a procura de alojamento, restauração e outros serviços turísticos locais.
 
No dia 13 de novembro, o Museu do Sabugal recebe o encontro "Cruzando La Raya, Cultura de la Frontera", dedicado à história e ao património dos territórios fronteiriços. Entre os temas em destaque estará a evolução das fortalezas da raia, outrora estruturas militares de defesa e hoje importantes testemunhos históricos e recursos turísticos.
 
A música integra igualmente as Jornadas. No dia 28 de novembro, o Convento de Santa Maria de Aguiar, em Figueira de Castelo Rodrigo, acolhe um concerto de um quinteto da Orquestra Sinfónica de Castela e Leão, proporcionando mais um momento de encontro cultural entre os dois lados da fronteira.

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