OPINIÃO / Dia Mundial da Educação: Honrar quem não pôde estudar para que nós pudéssemos ensinar

Evoluímos da instrução rígida para a formação humana, por isso é importante, Hoje, neste Dia Mundial da Educação (24 de janeiro), honrarmos quem não pôde estudar para que nós pudéssemos ensinar.
Celebrar o Dia Mundial da Educação obriga-nos a um exercício de memória e gratidão. Ao olharmos para a história, não podemos esquecer a geração dos nossos avós e dos nossos pais, para quem a infância teve contornos bem mais duros. Naquele tempo, ir à escola era um privilégio negado a muitos, sacrificado cedo demais em prol do trabalho. A educação era pautada por uma rigidez austera, onde o saber era imposto pelo temor e não pelo prazer da descoberta.
Como dizia Paulo Freire, "A educação não transforma o mundo. A educação muda as pessoas. As pessoas transformam o mundo." No tempo dos nossos antepassados, essa transformação era um sonho distante; hoje, é a nossa missão diária
Tal como tantas meninas da geração de 70/80, eu alimentava os sonhos típicos daquela época: ser professora ou cabeleireira. As brincadeiras de infância já denunciavam o que futuro me reservava e, pelo aspeto com que ficavam as bonecas, os cortes de cabelo e penteados nunca foram a minha vocação. Assim, o desejo de ensinar, de cuidar do crescimento do outro e de abrir horizontes tornou-se o meu norte.
A minha viagem começou nas raízes da Educação de Infância (pré escolar), onde fui imensamente feliz. Foram esses pequenos petizes que me ensinaram a valorizar a essência humana e a importância de ser uma defensora da infância. Seguiram-se o 1.º ciclo, pós-graduações e mestrados, mas foi o olhar de um aluno específico que cruzou o meu caminho que mudou o meu destino, conduzindo-me à Educação Especial. Hoje, entendo que a educação tem de ser, acima de tudo, inclusiva e sensível à singularidade de cada um.
Se outrora o ensino era uniforme e distante, hoje somos tutores de sonhos. Somos nós que plantamos o "bichinho" da escrita ou da descoberta dos labirintos do cálculo, da História e das Estórias, que despertamos a curiosidade no futuro arqueólogo ao falarmos das Pirâmides e quando visitamos um museu, ou que validamos o talento de quem segue Artes através de um elogio sincero perante um desenho ou uma pintura. Esta ligação nasce da empatia e do tempo que dedicamos aos nossos alunos — seres que nos dão sempre muito mais do que aquilo que recebem.
Sinto-me a guardiã destas memórias e a gratidão transborda nas mensagens de aniversário que ainda recebo e nas fotos “dos meus meninos” de traje académico que me chegam com orgulho. Para o mundo, são hoje homens e mulheres; para mim, guardo neles a imagem das crianças curiosas que ajudei a guiar.
Quando me cruzo com um adulto na rua e reconheço nele o olhar de outrora, digo com um orgulho que me transborda o peito: "Foi meu." Educar continua a ser o ato mais belo de abrir portas para o mundo, permitindo que cada aluno as atravesse com coragem e o eterno brilho da descoberta nos olhos.

Lina Fernandes (Professora de Educação Especial)

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