- Um caminho sem rumo -

O tempo de estrada já o fez esquecer o dia em que partiu: um tempo que o relógio deixou de marcar e só cada nascer do sol indica que mais um dia passou, que mais um pedaço de caminho se prepara para ser calcorreado, por umas botas de solas cansadas.

O raiar do dia marca o parágrafo de mais um capítulo, numa caligrafia arrepiada e um conjunto de letras na formação das palavras e frases mal conjugadas que, sentido, só fazem na interpretação contextual de quem não quer saber ler, não nas linhas, mas nas entrelinhas do quadro que diante anos pintado, morreu num borrão social.

Olho-o ao longe, mesmo estando mais perto, a distância do seu olhar num profundo infinito, promove o obscuro que o separava, a si e ao seu amigo canino, do exterior dos seus pensamentos, onde será que amarra os seus pensamentos? Quem será que os detém?

Gonçalo, vou assim chamá-lo, calcorreia caminho sem rumo. Nas costas carrega uma mochila, na mão um cajado e no rosto uma tremenda expressão de solidão somente, certamente, combatida em curtos monólogos com o seu companheiro de quatro patas, aquele que não o abandona nos momentos difíceis, que o acompanha, caminhando ao seu ritmo, atrás de si, não o apressando e deixando-o tomar a liderança. Aquele que não o julga, mas sim o abraça e a ele se aninha, aquecendo-o, nas frias noites passadas ao relento.

E como saco vazio não se aguenta de pé, também aqueles dois companheiros de viagem o terão de fazer, sob possibilidade de, não o fazendo, fiquem deveras debilitados e doentes; Mas como é que que quem não tem rendimentos, garante uma refeição, neste caso, duas?! - Existem algumas possibilidades - pedir, quiçá, sobras de restaurantes que tenham como destino o contentor do lixo; mendigar aos transeuntes uma esmola de alguns euros ou, como vejo tantos Gonçalos fazerem, rebuscar no contentor do lixo, na esperança de por lá encontrar algo perecível que ainda apresente condições mínimas de aceitabilidade, para forrar as paredes do estômago.

Mas se para o comum dos hipócritas mortais tal comportamento é repugnante e reprovável, para o comum que nada tem, é mais uma passada no caminho da busca de um infinito perdido, do final do dia, do encerrar do capítulo.

E nós, alguns de nós, que podemos, de uma forma altruísta, contribuir para uma melhoria da vida dessas pessoas, acabamos de ler este texto e, encolhendo os ombros, murmuramos:

- O que é que esta gente contribui para a minha felicidade. - e - A mim também ninguém me ajuda. - ou simplesmente clicamos noutro link e seguimos em frente.

Se para cada um de nós a noite traz uma almofada confortável e uma noite descansada, para os Gonçalos traz a incerteza, a insegurança, a angústia e o perigo.

Conseguiremos dormir descansados! - Claro que sim! Somos egoístas o suficiente para isso.

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