O ano mudou. O calendário vira. Os números alinham-se de forma confortável e arbitrária e, com eles, regressa o ritual das resoluções. É um gesto quase litúrgico: prometemos a nós próprios uma versão melhorada de quem somos, como se a passagem de uma noite fosse capaz de operar aquilo que meses de inércia ou de imponderáveis não conseguiram.
Há algo de profundamente humano neste impulso. E algo de ingénuo e de sugestivo também.
Entramos no ano novo como quem entra numa casa arrumada por outros, acreditando, por breves dias, que o esforço de manter a ordem será mínimo. Depois a vida acontece. O corpo cansa-se, o ânimo oscila, os dias atropelam-se. As resoluções falham. E com elas surge o julgamento precipitado: “não tenho disciplina”, “não sou constante”, “não sou capaz”. E pior: “não tens disciplina”, “já sabes que não és capaz”, ou “nada de novo”, “não vale a pena”. Vale a pena.
Creio que este juízo é excessivo e injusto.
Falhar resoluções não é sinal de um insucesso irremediável. É, muitas vezes, sinal de que a vida não se deixa reduzir a listas, nem o humano a metas lineares. O erro não está em falhar, mas em acreditar que o valor de uma vida se mede pela taxa de cumprimento de promessas feitas sob entusiasmo sazonal ou pressão social.
Estou convicto de que o progresso verdadeiro raramente é visível de imediato, nem de interesse emergente dos “outros”. Não se anuncia com datas nem com slogans. Acontece no subterrâneo dos hábitos, na repetição imperfeita, nos pequenos ajustes que não dão fotografias nem aplausos. O progresso sério é discreto, quase aborrecido.
A virtude não está na resolução escrita, mas no empenho quotidiano. Está na intenção que se renova depois da falha. No brio com que se retoma um caminho sem inflacionar o erro. Está na forma como cuidamos da relação connosco próprios e com os outros, mesmo quando o plano original já não faz sentido.
A meu ver, a grande tarefa - mais exigente do que qualquer resolução anual - é alinhar três coisas simples e difíceis: o que pensamos, o que dizemos e o que fazemos. Quando estas três dimensões se afastam demasiado, instala-se a fratura interior. Começamos a viver como estrangeiros na nação da nossa própria identidade. Representamos papéis que não reconhecemos, defendemos ideias que não praticamos, praticamos atos que não respeitamos - e tudo isto é progressivamente perceptível por nós e depois por outros que não hesitarão em tapar a frustração sobre as suas falhas com as nossas, e entristecemos.
É aí que surgem as frustrações mais profundas. Não por termos falhado um objetivo, mas por termos perdido coerência.
A vida boa não é a vida sem falhas. É a vida que sabe o que fazer com elas. Há uma diferença substancial entre desistir e ajustar. Entre abandonar e reformular. Entre falhar e aprender. Confundir isto é um “luxo” que nem o indivíduo nem a comunidade se devem permitir por muito tempo.
Também a sociedade vive deste mesmo equívoco. Exige resultados imediatos, promete progressos contínuos, demoniza o erro e esquece que qualquer processo humano digno é irregular, lento e cheio de desvios. Uma comunidade que não aceita o falhanço acaba por fabricar mentiras para o esconder - e alguém paga caro por isso.
Talvez o ano novo não sirva para recomeçar do zero. Talvez sirva apenas para lembrar algo mais modesto e mais verdadeiro: que continuar, apesar de cair, é uma forma de coragem. Que insistir com lucidez vale mais do que prometer com euforia. Que o progresso, pessoal ou coletivo, não é uma linha reta, mas uma espiral que talvez tenda para a impossibilidade da plenitude.
Se houver, para mim, alguma resolução que valha a pena, será esta: aplicar atenção, intenção e responsabilidade ao dia que temos hoje. Amanhã é outro dia, que depende de hoje e de hoje de outros que não controlamos nem antecipamos. Como sempre foi. E não esqueçamos a gratidão sobre todo este processo.
António Carraco dos Reis
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