Ler é viajar, é também sonhar dentro dos sonhos doutros, é por isso que leio devagar, muito devagar quase sempre, não por norma, aliás, não tenho norma nenhuma na leitura. Apenas parto, embarco sem expectativas, pois, é ela que palavra a palavra deglutida, se me revelará.
Leio como um barco que navega conforme as circunstâncias do estado do mar lhe permitem. Leio no papel como leio a vida. Navego nas leituras, elas são-me viagens. Para mim, ainda não existiram duas viagens iguais, nem as viagens repetidas foram-me iguais, porque na segunda eu já não era igual a mim, naquela outra. Iguais, quase iguais, mas mesmo assim nunca iguais, só os percursos monotamente repetidos, mas - repito - mesmo assim, nunca exactamente iguais, porque há sempre um dia no qual aquele vazo que vai tantas vezes à fonte quebra-se e, esse percurso dessa vez também não será igual, tal como quando finalmente ELA DISSE QUE SIM, naquela dança, ao pedido de NAMORO na carta que havia muito ele lhe escrevera - como maravilhosamente cantou o nosso saudoso Fausto.
CONFESSO QUE VIVI de Neruda, é-me uma espécie de volta ao mundo sem data para conclusão. Neste momento ele está acostado algures..., enquanto eu me debato, transmuto sentimentos, luzes, percursos, alternativas, fendas, carateras, planos, dimensões, ou outras singelas formas de ver e de sentir que me vão permitindo..., permitir-me ser um viajante.
Por vezes, lanço uma âncora numa palavra, numa frase, num parágrafo ou num capítulo e... perco-me numa nova viagem só minha, dolorosa ou feliz, encantada ou não, que mais tarde partilharei ou não...
Tanto me aventuro mar adentro, ou dito doutra forma, livro a fio, sem a bússola alerta do pensamento questionador, como me posso cabotar com a terra bem à vista e com os pés bem assentes no fundo, na areia fofa e atrapalhada debaixo da água.
Quase nunca me empenho numa única viagem de cada vez. Três ou quatro simultâneas são-me as ideais. Sou sôfrego de conhecimento. Sou fácil de palavra. Bom observador e esponja também. Vejo para além do imedito, concluo quase sempre - agora por norma - mais adiante, sem perder as minhas ideias, filhas das minhas experiências e viagens.
Entendo-me bem com meias palavras, intuo o resto recta e rapidamente. Na maioria das vezes já venho no ainda ir dos outros - chamo-lhe antecipação. Não uso sofismar, enfim, sou nato viajante nas minhas e nas viagens que outros me proporcionam. Em mim, algumas viagens perduram anos, outras nunca acabam, doutras esqueço-me logo que acabam e, as péssimas varro-as da memória como faço aos pesadê-los.
Já a poesia, é mar..., é água profunda, é mistério denso, é tesouro que se revela diferente em cada declamação, porque " SER POETA É SER MAIS ALTO " ... como soa este verso sublime da Florbela. Há poesia tão concreta quanto são os substantivos na de Sophia quando diz: " a força dos sonhos dos meus sonhos é tão forte (...) que nunca fico de mãos vazias". Diz a poesia com palavras que não parece dizerem aquilo que dizem, mas que dizem muito, tanto... , muito mais em menos palavras do que a prosa. Nisso, Pessoa foi genial. Soube também " APROVEITAR O TEMPO! TIRAR DA ALMA OS BOCADOS PRECISOS - NEM MAIS NEM MENOS " - soube que " QUANDO VIER A PRIMAVERA SE EU (ele) JÁ ESTIVER MORTO, AS ÁRVORES FLORIRÃO DA MESMA MANEIRA ". Já PEDRO BARROSO muito lucidamente, com a alma doída, declamou, acompanhado à viola: " AI AMIGOS, PÁ! CADA UM DE NÓS NASCE COM UM POETA LÁ DENTRO... " - ou um viajante... , digo eu!
... Já a poesia, é mar..., é água profunda, é mistério denso, é tesouro que se revela diferente em cada declamação.
Walter Ramalhete.
Figueira da Foz, 7 de Novembro de 2025.
Este texto foi escrito nos termos ortográficos anteriores ao actual (Des) Acordo Ortográfico. Reservados todos os direitos de autor.
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