A Pedra branca do meu avião de papel

Agarra-me. O avião vai-me cair. De que serve ter o chão se o melhor é ir?
O Outro.
Esse eu nunca apanhado, resíduo de uma limitação in existencial. Na vida tudo o que é pensado, para uns é teatro, para outros (confessam-se ao pároco mais próximo com) o maior pecado.
A pedra que se tornou branca devido à sua passagem por terras de cal. Trouxe-a o pároco, diz-nos ele que limpa a nossa alma, que nos reduz a antítese de cada ideal.
Vão para onde forem encontram sempre: os que escrevem, os que falam,os que ouvem, os que vêm, e os que se calam. Cuidado com esses, esses voam e falam na língua que não falam.
Não percebo porque quero saltar do avião agora. Sinto o avião cair-me. Porque uma parte de mim quer fugir da outra parte que quer ficar, nestas passagens e testemunhos de azos, de tintas, de borra - parte da seda do casulo que não é fiada (e não escória social anunciada).
Agarra-me. Com o teu beijo. Com a tua carícia. Esses grandes baluartes onde deixo de sentir as pedras perdidas nos meus pequenos e recônditos bolsos que teimam em sobrecarregar os meus ossos, para onde a vista já não quer e já não mora. Seremos todos sorte? Tu és forte? Agorinha? Agora?
Agarra-me. Que esta madrugada seja de festa. Vale tudo. Tudo. Até passarmos juntos esta madrugada, pestana a pestana. Sim, a pedra tem pestanas e fala comigo. E olha. Olha. A Pedra branca olha.
Falo de ti e para ti Pedra branca, como Sartre falou em tempos, em mil novecentos e trinta e qualquer coisa.
Ele queria perder o contacto exagerado que tinha com a matéria não existencial e ansiava perder também o apetite inacabável que o aumentava e diminuia por uma e mais uma e outra mulher. Para um historiador não esteve nada mal no seu plano relacional. Já o seu existencialismo, por uns, amado, por outros, ferozmente criticado, deixou-nos uma pista, um sinal. Há até quem diga, ele próprio o dizia, que era feio que nem uma porta. E eu pergunto-me: existem portas feias? O porquê desta relação entre o feio e uma porta, um dia terei de o pesquisar. Será isto também in existencial? O não paralogismo existencialista com que Sartre se referia também no seu primeiro romance, ainda hoje está em voga, mais um, que passados anos e anos se mantém actual, na sua mensagem, na sua ideação de o outro não ser pouco, ser aquém da nossa compreensão, do mero sonhador passar a ser um homem de fé, de se ser homem e para o ser, ser tudo, até louco com a responsabilidade cravada no peito como todo o louco que deveras é.
Agarra-me. Quero ir ter com ele. Quero entrar pelos livros e dentro deles fazer algumas perguntas.
Aqueles livros, aquele livro, o tal, sempre presente com a pedra branca do meu avião de papel, deixa-me irrequieto. Ensaia-me até ao limite da duração razoável, a minha vista tenta dizer que chega, ao que respondo: tenta chegar lá, onde aquela alma de Deus perdido pelos séculos chegou e depois diz-me alguma coisa.
Agarra-me esta madrugada. Tenho medo. Cada página que leio aumenta-me o anseio. Até isso Sartre previu, pois fala do medo como um bem necessário para sermos fortes. Na sua ideia, só os fortes sentem medo, os fracos não. O outro, a liberdade de sermos alguém a alguém, fazem de mim refém, página a página, sinto-me um outro a existir, como se eu me fosse mais alguém.
Por isso agarra-me, estou a tentar ser mais forte e para lá chegar tenho de ter muitos momentos com os pés enterrados no medo e ao mesmo tempo libertino na cara, com um sorriso pérfido. Quanto mais sincero e bonito o sorriso, maior o medo (como diria mais uma vez o escritor). Maior a festa, caro senhor!
Acho-me. Perco-me. Somos tempo. Somos hasta.
Eu que sonho o meu sorriso…e para quê eu o falar?
Esta pedra branca está presa aos meus pés, daqui não consigo sair, até encontrar tudo sem porquês.
Afinal, a Pedra branca do meu avião de papel é um sinal de muitos futuro e logísticos: de nada, não tens de quê. Porquê? Porque é que a rosa amarela é amarela? A cor, o cheiro, a textura, o corte, o enfeite, ser reduzido a uma rosa amarela?
Não ao enfeite. Sim ao defeito. Sim a ela.
“O outro é, por princípio, aquele que me olha“.

 

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