Portugal e Espanha precisam acelerar a concretização das infraestruturas e construir uma visão conjunta para a intermodalidade, capaz de integrar ferrovia, rodovia, portos e terminais numa verdadeira rede logística ibérica.
A mensagem marcou esta terça-feira, 15 de setembro, a I Conferência Ibérica de Intermodalidade, realizada no Terminal Multimodal de Granja do Ulmeiro – Alfarelos, em Soure.
Promovida pela Câmara Municipal de Soure, APAT – Associação dos Transitários de Portugal e AET – Asociación Española del Transporte, a iniciativa reuniu representantes institucionais, autoridades portuárias, operadores ferroviários e rodoviários, terminais e empresas de Portugal e Espanha, colocando no centro do debate a necessidade de transformar os compromissos assumidos ao longo dos últimos anos em investimento executado e ligações efetivamente competitivas.
Na abertura da conferência, o presidente da Câmara Municipal de Soure, Rui Fernandes, recordou que a conectividade ibérica permanece em discussão mais de uma década depois dos compromissos assumidos em torno do Corredor Atlântico de mercadorias. «Falamos de conectividade ibérica há treze anos. Continuamos a falar dela como se fosse uma novidade», afirmou, considerando que Portugal e Espanha permanecem «a meio caminho entre a intenção política e a infraestrutura construída».
Para Rui Fernandes, o atual processo de reorganização das cadeias de abastecimento abre uma oportunidade para Portugal e Espanha reforçarem a sua posição na logística europeia. O nearshoring, a procura de cadeias mais curtas e resilientes e a diversificação das rotas de abastecimento podem favorecer a Península Ibérica, mas essa oportunidade dependerá da capacidade de oferecer boas acessibilidades e ligações ferroviárias e terminais com capacidade para responder às necessidades das empresas.
É neste contexto que o autarca destacou o Terminal Multimodal de Alfarelos, sublinhando que não se trata de um projeto futuro, mas de uma infraestrutura já em funcionamento, com transbordo multimodal de carga, ligação ao Porto da Figueira da Foz e utilização por empresas como a IKEA e a Colep.
Também o presidente da APAT, Joaquim Pocinho, defendeu na sessão de abertura a necessidade de abandonar uma visão estritamente nacional da logística. «Não existe uma verdadeira estratégia logística portuguesa sem uma dimensão ibérica», afirmou, considerando que Portugal e Espanha constituem uma realidade económica e logística profundamente interdependente, com corredores que atravessam fronteiras e cadeias de abastecimento cada vez mais interligadas.
Joaquim Pocinho defendeu que esta conferência pode contribuir para a definição de uma agenda ibérica para a intermodalidade, assente em objetivos concretos: criar uma visão comum para Portugal e Espanha; definir uma rede ibérica de Portos Secos e terminais intermodais; reforçar a ferrovia de mercadorias e a interoperabilidade; melhorar a ligação dos portos ao hinterland ibérico; simplificar procedimentos e acelerar a digitalização; criar condições para o investimento privado; integrar sustentabilidade, competitividade e resiliência numa estratégia comum para o setor, e, sobretudo, pensar a logística não como uma soma de infraestruturas, mas como uma rede económica.
O responsável deixou ainda uma mensagem aos governos de Portugal e Espanha, defendendo uma política pública integrada para as mercadorias e a logística. No caso português, a APAT considera que os objetivos definidos no PORTOS 5+ estão em consonância com as necessidades da intermodalidade, mas reclama a concretização efetiva dos investimentos previstos. «Não estamos a pedir ao mercado que escolha a ferrovia; estamos a pedir ao Estado que crie as condições para que o mercado possa escolher a melhor solução logística», salientou Joaquim Pocinho.
Por seu turno, Juan Mourín, presidente da AET, identificou as barreiras que ainda impedem Portugal e Espanha de funcionarem como um único sistema logístico e apontou uma prioridade: concluir e colocar efetivamente ao serviço das mercadorias as ligações ferroviárias transfronteiriças.
Para o presidente da AET, o potencial existe e registam-se alguns avanços operacionais, mas o sistema logístico ibérico permanece, sobretudo, uma ambição. As diferenças técnicas, as barreiras administrativas e a falta de coordenação dos investimentos continuam a limitar a fluidez das operações entre os dois países e a ligação da Península ao centro da Europa.
A encerrar a I Conferência Ibérica de Intermodalidade, o secretário de Estado das Infraestruturas, Hugo Espírito Santo, referiu que «a intermodalidade não faz sentido se não funcionar em rede e não for olhada a um nível ibérico. Trata-se de competitividade. Não conseguiremos concretizar o Plano Portos 5+ sem a intermodalidade e cada vez mais é necessário criar um espaço logístico em toda a Península Ibérica».
Hugo Espírito Santo, assumiu ainda que é necessário criar e desenvolver um plano nacional logístico, integrando todos os stakeholders e players do setor e fazendo crescer as infraestruturas de transportes.
Entre os participantes nesta primeira Conferência de Intermodalidade, estiveram representantes dos Portos de Sines e Algarve, Douro, Leixões e Viana do Castelo, Aveiro e Figueira da Foz, Vigo e Huelva, assim como de entidades como a Infraestruturas de Portugal, APEF, Klog, Tramesa, Transitalia, Yilport, SAPEC e RodoCargo, entre outros.
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