Há infraestruturas que transportam pessoas e há infraestruturas que transformam territórios. O antigo Ramal da Figueira da Foz pertence à segunda categoria.
Quando o caminho de ferro chegou à Figueira, em 1882, não trouxe apenas passageiros. Aproximou o porto do interior, facilitou o comércio, apoiou a indústria, impulsionou o turismo e integrou a cidade num espaço económico muito mais vasto. A ferrovia ajudou a reduzir distâncias físicas, económicas e sociais.
Quase século e meio depois, deveríamos olhar para aquele corredor com a mesma ambição.
A discussão não pode reduzir-se a encontrar a solução mais barata para ligar a Figueira da Foz a Coimbra. O verdadeiro desafio é decidir que território queremos construir para as próximas gerações.
Recuperar o Ramal significa reconstruir um eixo estruturante entre Figueira da Foz, Cantanhede e Pampilhosa, ligando-o depois a Coimbra, Aveiro, Porto, à Beira Alta e a Espanha.
E Cantanhede não é um ponto intermédio. É uma cidade, sede de concelho, com expressão industrial, empresarial, tecnológica e demográfica própria. Uma ligação ferroviária entre Figueira da Foz e Cantanhede criaria uma nova relação entre duas cidades complementares e devolveria simultaneamente mobilidade às freguesias e vilas existentes ao longo deste território.
Essa dimensão é particularmente importante quando assistimos ao envelhecimento e à perda de população nos meios rurais. Não basta pedir às pessoas que permaneçam nas suas terras. É necessário criar condições para que possam fazê-lo.
Uma família pode encontrar habitação mais acessível em Arazede, Maiorca, Alhadas ou noutras localidades do corredor, beneficiando de mais espaço, tranquilidade e qualidade de vida. Mas essa vantagem diminui rapidamente quando trabalhar, estudar, ir ao hospital ou simplesmente participar na vida urbana exige dois automóveis por agregado familiar.
Sem mobilidade, a habitação pode ser mais barata, mas a vida continua cara.
Uma ferrovia regional moderna altera esta equação. Permite viver numa freguesia rural e trabalhar na Figueira ou em Cantanhede. Permite estudar em Coimbra sem abandonar necessariamente a terra de origem. Permite aos mais velhos manterem a sua autonomia e o acesso aos serviços. Permite, sobretudo, escolher onde viver sem que a distância se transforme numa penalização.
Mobilidade é também política de habitação. É política demográfica. É coesão social e qualidade de vida.
Existe ainda uma nova realidade que torna esta discussão mais urgente: a nova zona industrial do Pincho, implantada junto do corredor ferroviário.
Isto não é um acaso territorial sem importância. É uma vantagem competitiva.
Estamos a criar naquele espaço uma nova centralidade empresarial, capaz de acolher investimentos relevantes e centenas de trabalhadores. Ter uma zona industrial próxima de uma ligação ferroviária permitiria pensar simultaneamente na mobilidade laboral e, sempre que economicamente justificável, na logística das próprias empresas.
Imagine-se a capacidade de apresentar a um investidor um território servido por boas acessibilidades rodoviárias, pelo Porto da Figueira da Foz e por uma ferrovia que o liga a Cantanhede, à Pampilhosa e aos principais corredores nacionais e internacionais.
Isso chama-se competitividade territorial.
E existe ainda o Porto da Figueira da Foz. Uma infraestrutura portuária deve ser pensada em articulação com a ferrovia, a indústria e os grandes corredores logísticos. Um Metrobus transporta passageiros. Uma ferrovia pode transportar pessoas e mercadorias e integrar-se numa rede nacional.
Não são soluções equivalentes.
Também não existe qualquer contradição entre esta posição e a criação da ecopista.
Enquanto vereador executivo da Câmara Municipal da Figueira da Foz, votei favoravelmente essa solução, deixando claro em ata o sentido do meu voto: preservar o corredor, mantê-lo aberto e impedir que se perdesse a possibilidade de, no futuro, voltar a existir o Ramal da Figueira da Foz.
A ecopista nunca deveria representar o funeral da ferrovia. Deveria garantir a preservação do seu espaço enquanto não existissem condições para pensar novamente o futuro.
E talvez esse momento tenha chegado.
Portugal está a investir novamente na ferrovia e na alta velocidade. Seria difícil compreender que, precisamente agora, a Figueira da Foz aceitasse afastar-se definitivamente dessa rede.
Não precisamos apenas de chegar a Coimbra.
Precisamos de ligar Figueira da Foz, Cantanhede e Pampilhosa, aproximando cidades e meios rurais, população e emprego, habitação e serviços, indústria e porto.
Precisamos de fazer das nossas freguesias lugares onde seja possível escolher viver, e não apenas lugares de onde se parte.
Em 1882, a ferrovia ajudou a transformar esta região.
Pode voltar a fazê-lo no século XXI.
Não por nostalgia.
Por desenvolvimento, coesão e visão de futuro.
O Ramal da Figueira da Foz não pertence apenas à nossa história. Pertence às escolhas que ainda podemos fazer sobre o nosso futuro.
Miguel Pereira
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