As notícias dão conta de que, só no distrito de Leiria, a tempestade “Kristin” terá derrubado entre cinco a oito milhões de árvores. A maioria, muito provavelmente, pinheiros. Uma parte significativa pertencerá a pequenos proprietários privados, que constituem a base da nossa estrutura fundiária florestal. Sim, porque em resultado da reflorestação do Leslie da mata nacional, quase de certeza que não existia o que derrubar, uma vez que não tinham sido plantados pinheiros ou os que foram não tinham ainda porte para tal.
Perante números desta dimensão, a primeira consequência é inevitável: excesso súbito de oferta. Como em qualquer mercado, quando a oferta dispara, o preço cai. A madeira abundante passa rapidamente a valer pouco, por vezes menos do que o custo da sua extração e transporte. O resultado é duplamente penalizador: prejuízo imediato e desmotivação futura.
Infelizmente, já vimos este filme antes. Depois da Tempestade Leslie, a promessa de uma reflorestação estruturada e visível ficou aquém do necessário. Basta percorrer a Estrada Nacional da margem norte da Figueira da Foz para sul para perceber que, em muitos locais, a recuperação não foi planeada nem estratégica. A regeneração espontânea substituiu o ordenamento e a oportunidade de reformular o modelo florestal perdeu-se.
Agora, com “Kristin”, arriscamo-nos a repetir o erro.
A curto prazo, teremos madeira em excesso e preços deprimidos. A médio e longo prazo, poderemos ter escassez. Porque muitos pequenos produtores, confrontados com perdas significativas e rendimentos irrisórios, dificilmente terão capacidade financeira, ou motivação, para investir numa nova plantação. Mesmo com apoios públicos, os custos iniciais, a burocracia e o longo prazo de retorno funcionam como fortes desincentivos.
É aqui que a discussão ultrapassa a lógica ideológica do “mercado que se regula sozinho”. A floresta não é apenas um ativo económico. É também um bem ambiental, um fator de coesão territorial, uma barreira contra a desertificação humana, um instrumento de combate às alterações climáticas e uma peça central na prevenção de incêndios.
Quando um setor tem esta dimensão estratégica, a ausência de coordenação pública pode sair muito mais cara do que qualquer intervenção temporária.
Seria, por isso, razoável que a Estrutura de Missão para a recuperação das zonas afetadas pela tempestade “Kristin” assumisse também a gestão estratégica deste enorme volume de madeira. Não se trata de substituir o mercado, mas de o estabilizar: evitar preços irrisórios, fasear a colocação de produto, garantir liquidez aos pequenos produtores e, sobretudo, criar condições reais para a reflorestação.
Se nada for feito, o risco é claro: terrenos abandonados, aumento do risco de incêndio, fragilização do parque florestal e futura dependência de madeira importada. Hoje temos excesso. Amanhã poderemos ter falta. E, nesse intervalo, teremos perdido resiliência ecológica.
A tempestade “Kristin” pode ser apenas mais um episódio de destruição, ou pode ser uma oportunidade para finalmente repensar o modelo florestal português. A escolha não é meteorológica. É política!
Neste território, assim o fez D. Dinis, “o plantador das naus a haver”, como disse Fernando Pessoa.
Carlos Monteiro
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