Entrar numa sala de aula hoje, pousar o livro sobre a secretária e olhar para as minhas alunas e alunos é, por si só, um ato de liberdade que nem sempre valorizamos na sua plenitude. A História não se faz apenas de datas e batalhas; faz-se, sobretudo, de consciências e ao celebrarmos o papel da mulher no pós 25 de Abril, é imperativo olharmos para trás, não com amargura, mas com a reverência de quem reconhece que o nosso chão foi calcetado com o silêncio de muitas.
Antes da Revolução dos Cravos, a vida da mulher portuguesa era um desenho a carvão, feito de sombras e limites. Vivia-se sob a égide de um Código Civil que nos remetia para uma eterna menoridade: sem autorização do marido para viajar, sem direito pleno de voto, com o acesso vedado a carreiras como a magistratura ou a diplomacia. O destino parecia traçado entre as quatro paredes do lar, sob o olhar vigilante de uma sociedade que nos queria discretas, dóceis e, acima de tudo, submissas.
É aqui que presto a minha primeira homenagem. Às nossas avós e mães. Muitas delas silenciaram os seus sonhos e engoliram palavras para que a harmonia da casa não se quebrasse. Esse silêncio, contudo, não foi vazio, foi um silêncio fértil, uma resistência muda que nos serviu de adubo. Foi ao vê-las aceitar o pouco, que aprendemos a querer o tudo. A coragem que hoje temos para ocupar o espaço público e para exigir igualdade nasceu da observação dessas mulheres que, na sua aparente submissão, foram gigantes na arte de manter famílias e dignidades intactas.
O 25 de Abril abriu as janelas e trouxe o ar puro da cidadania. Para nós, professoras, essa mudança foi telúrica. A escola tornou-se o laboratório da democracia e a mulher assumiu o papel central na construção do "Portugal Novo". Fomos nós que, com o giz na mão, alfabetizámos gerações e ensinámos que a liberdade se escreve com "L" maiúsculo. Mas a emancipação trouxe consigo uma fatura pesada que ainda hoje pagamos.
A mulher de hoje, e a professora em particular, vive o paradoxo da conquista. Somos profissionais de excelência, gestoras de currículos e de afetos, mas continuamos a ser, na esmagadora maioria das vezes, as principais, se não as únicas, gestoras do lar. Saímos da escola para a "segunda jornada": o jantar, os banhos, o apoio aos filhos, o cuidado com os mais idosos. A nossa liberdade é, ainda, uma liberdade sobrecarregada. Somos a par e passo conquistas e cansaços, tentando equilibrar o papel de cuidadoras com o de cidadãs plenas.
Neste percurso, não podemos esquecer as pioneiras. Mulheres como Maria Lamas, que denunciou a condição feminina quando o risco era real; Natália Correia, que desafiou a norma com a sua inteligência deslumbrante; ou as "Três Marias" (Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa), que ousaram escrever sobre o corpo e o desejo quando o mundo ainda era governado por "eles". Elas foram as vozes que rasgaram o véu num tempo em que o masculino era o único sujeito permitido.
Como educadora, sinto que o meu dever é transmitir esta memória. Ensinar que a igualdade não é um estado natural, mas uma construção diária. Devemos às mulheres, que outrora se silenciaram, a voz (alta) que temos hoje. E devemos às mulheres que virão a coragem de não darmos nem um passo atrás.
A Revolução começou na rua, mas continua a fazer-se em cada casa onde as tarefas são partilhadas e em cada sala de aula onde uma menina descobre que pode ser tudo o que quiser.
Lina Fernandes
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