OPINIÃO: Ouve o que digo mas não olhes para o que eu faço...

Hoje, para aproveitar as derradeiras réstias de calor e sol de um verão que já se começa a despedir, fui fazer uma caminhada pela marginal da Figueira. Com o avançar dos anos, ganha-se a valiosa capacidade de observar o mundo sem pressas. Se por um lado me deslumbro com os pequenos detalhes do quotidiano, por outro confesso-me profundamente apreensiva com o rumo que presencio. Foi o caso hoje.

Escrevo estas linhas preocupada com a minha geração, os pais dos que agora estão a entrar na adolescência. Passamos a vida a criticar os comportamentos da juventude, rotulamo-los de jovens alheados da realidade, escravos dos ecrãs, dependente de algoritmos e desprovidos de empatia para com o seu semelhante, etc. A grande parte de nós opõem-se frontalmente à presença de telemóveis nas escolas e aplaudimos de pé decisões institucionais que proíbem estes aparelhos em determinados espaços. Contudo, convém não esquecer que as tecnologias, quando usadas com sensatez e para os melhores fins, são excelentes aliadas no acesso ao conhecimento. O problema nunca é a ferramenta em si, mas sim o uso que dela fazemos.

Durante o meu passeio, parei a olhar para um dos campos de futebol no areal, um local convidativo a uns chutos na bola e a momentos descontraídos para miúdos e graúdos. Vi crianças e jovens a jogar futebol e, no meio deles, um adulto que insistentemente apelava aos outros pais para participarem no jogo. Na berma do campo, estavam os restantes adultos, pais e mães, imóveis de cara colada ao telemóvel e, acreditem, quando voltei da minha caminhada, o cenário continuava exatamente igual.

Aquela visão fez-me avaliar a minha própria postura quando estou com a minha filha. Todos temos “telhados de vidro” e, assumo, quantas vezes estou numa esplanada ou na praia e pego no telemóvel para ver e responder a e-mails, alegando que é urgente e importante. Mas a verdade é que não, não é urgente. Pode esperar. O importante é ter tempo de qualidade com os nossos filhos. Numa era digital, os primeiros influencers estão dentro de casa; não nos podemos esquecer do papel do pai, da mãe ou do irmão mais velho. Como dizia o célebre ditado popular, «tal pai, tal filho», ou, na sabedoria imortal de James Baldwin, «as crianças nunca foram muito boas em ouvir os mais velhos, mas nunca falharam em imitá-los».

Eis o cerne da questão. Crianças e jovens necessitam visceralmente de faróis morais e de espelhos onde projetem a sua admiração. Na era digital, os primeiros influencers habitam sob o mesmo teto.

Recordam-se, com certeza, das brincadeiras dos nossos filhos, quando eram mais pequenos e em jeito de faz de conta, imitavam o pai ou a mãe a cozinhar ou a conduzir. Se outrora achávamos
graça à imitação dos gestos dos adultos, hoje colhemos os frutos de comportamentos enraizados pela repetição silenciosa e, muitas vezes, o mau exemplo reside em nós. Afinal, a máxima é implacável e transcende a retórica, as crianças nunca primaram por acatar sermões, mas jamais
falharam em mimetizar atitudes. Não podemos exigir lucidez digital à prole quando, nós pais, cultivamos a sua dependência, à vista desarmada. Urge, portanto, abandonar a hipocrisia pedagógica e encarnar, sem subterfúgios, o bom exemplo que exigimos ver refletido nas novas gerações.

Lina Fernandes

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