OPINIÃO: Quinze anos depois, a geração continua à rasca

Em 2011, milhares de jovens saíram à rua em Portugal para denunciar uma realidade marcada pela precariedade laboral, pela falta de perspetivas de futuro e pela dificuldade em construir um projeto de vida independente. A mobilização ficou conhecida como a manifestação da “Geração à Rasca” e simbolizou a frustração de uma geração que, apesar de mais qualificada do que as anteriores, enfrentava condições económicas e sociais profundamente adversas. Quinze anos depois, importa questionar até que ponto as políticas públicas conseguiram responder a esse alerta.
A verdade é que, apesar de algumas melhorias conjunturais, muitos dos problemas estruturais identificados naquela altura persistem. A juventude portuguesa continua a enfrentar obstáculos significativos no acesso ao emprego estável, na valorização salarial e, sobretudo, no acesso à habitação. Estes desafios não resultam apenas de circunstâncias económicas momentâneas, mas refletem fragilidades acumuladas em diferentes áreas da política pública.
No mercado de trabalho, continua a existir um desfasamento evidente entre qualificação e remuneração. Portugal formou uma geração altamente preparada, com níveis de escolaridade e especialização superiores aos do passado. No entanto, as políticas económicas não conseguiram acompanhar esta transformação com uma estratégia consistente de valorização do trabalho qualificado. O resultado é um mercado laboral onde muitos jovens enfrentam salários baixos, progressão lenta e contratos pouco estáveis.
A situação torna-se ainda mais crítica quando se analisa o acesso à habitação. O aumento do preço das casas e das rendas, particularmente nas áreas urbanas, criou uma barreira quase intransponível para grande parte da juventude. As respostas políticas têm sido, em muitos casos, fragmentadas e insuficientes face à dimensão do problema. Incentivos pontuais ou programas limitados não substituem uma verdadeira política de habitação que aumente significativamente a oferta acessível e que integre o planeamento urbano, o investimento público e a regulação do mercado.
A ausência de uma abordagem estrutural tem contribuído para prolongar a dependência económica dos jovens face às suas famílias. Cada vez mais pessoas adiam a saída de casa dos pais, não por escolha, mas por falta de condições para viver de forma independente. Este adiamento tem implicações profundas na organização social, no crescimento demográfico e até na dinâmica económica do país.
Quinze anos depois da mobilização da “Geração à Rasca”, o debate já não pode centrar-se apenas no diagnóstico. Esse diagnóstico foi feito há muito tempo. O verdadeiro desafio é político e estratégico. Exige políticas públicas que reconheçam a juventude como uma prioridade estrutural para o desenvolvimento do país.
Isso implica uma agenda clara em três dimensões fundamentais. Uma política económica que valorize efetivamente o trabalho qualificado e promova salários mais competitivos. Uma política de habitação que aumente de forma significativa a oferta de casas acessíveis para jovens e famílias. E uma política laboral que reduza a precariedade e promova maior estabilidade profissional.
Ignorar estes desafios significa aceitar que Portugal continue a perder talento para o exterior ou a desperdiçar o potencial de uma geração inteira. A manifestação de 2011 foi um aviso claro sobre os riscos de um país que não cria condições para o futuro dos seus jovens.
Quinze anos depois, a questão já não é saber se a geração estava à rasca. A questão é saber se as políticas públicas estiveram à altura de responder a esse grito coletivo. Até agora, a resposta parece continuar incompleta.

Bruno Santos
Licenciado em Estudos Europeus, mestrando em Administração Público-Privada e pós-graduando em Comunicação e Marketing Político pelo Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa.

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