Servilusa trouxe a Portugal o investigador Carl Becker para apresentar dados sobre os efeitos do luto na saúde, na produtividade e na sociedade e sobre o papel dos rituais funerários no apoio às famílias
O luto tem efeitos mensuráveis na saúde física e psicológica, na produtividade e nos sistemas de saúde, e os rituais funerários podem ajudar a atenuá-los. Foi esta a tese defendida em Lisboa (dia 2 de outubro), por Carl B. Becker, investigador da Escola de Medicina da Universidade de Quioto, na conferência «O Impacto dos Funerais nas Famílias em Luto e na Sociedade», promovida pela Servilusa, pela Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa e pela InLuto, na Aula Magna da Faculdade de Medicina.
Segundo os dados apresentados, entre 14% e 15% dos familiares e amigos enlutados desenvolvem problemas médicos ou psiquiátricos adicionais após uma morte. A investigação analisa ainda o impacto do luto na produtividade e a consequente pressão sobre os serviços de saúde, argumentos com que Becker sustenta que a morte e o luto devem ser tratados como questões de saúde pública.
Becker, norte-americano nascido no Havai, que vive e investiga no Japão, trabalha nas áreas da saúde pública, da ética médica, da morte, do fim de vida e dos rituais funerários. A sua apresentação destaca e quantifica o efeito que a satisfação ou insatisfação com o funeral pode ter na economia de um país: por exemplo, nos EUA foi estudado que esse valor pode chegar a um custo de até 19 mil dólares por ano e por pessoa.
Este é o valor conjunto do impacto económico causado pelo Absentismo (licenças de luto e baixas médicas – nove mil dólares) e pelo que designou por «Presentismo» (dez mil dólares), quando pessoa vai trabalhar, mas, perante situações mal resolvidas de luto, pode ver a sua produtividade reduzida em até 40% por ano.
Na intervenção “««Luto e Saúde Pública: O Impacto Humano e Económico dos Rituais Funerários» defendeu que a preparação para a morte, a participação em rituais funerários adequados e o apoio familiar e comunitário podem reduzir alguns destes efeitos.
«A sociedade precisa de compreender em toda a extensão a verdadeira importância de um funeral completo e satisfatório, sem sobrecarregar financeiramente as famílias enlutadas. A qualidade da interação durante o funeral deixa memórias duradouras e pode reduzir os custos médicos públicos», afirmou. O investigador sugeriu ainda a realização de inquéritos, na própria comunidade, «para comprovar a influência dos funerais na saúde pública e na economia».
Para Paulo Moniz Carreira, diretor-geral da Servilusa, o debate é necessário: «O funeral não é apenas um momento cerimonial: pode ser uma estrutura de apoio, reconhecimento e ligação comunitária num dos períodos de maior vulnerabilidade das famílias. Com esta conferência pretendemos trazer o luto para a conversa pública e promover uma reflexão informada sobre o valor humano e económico dos rituais de despedida.».
Partindo da investigação realizada no Japão e noutros contextos internacionais, Becker quer agora estimular estudos semelhantes em Portugal sobre a relação entre mortalidade, práticas funerárias, necessidades das famílias enlutadas e recurso ao Serviço Nacional de Saúde. Na sua perspetiva, esse trabalho poderá documentar o contributo dos serviços funerários para a saúde pública e adequá-los às necessidades psicossociais de uma população envelhecida.
A conferência reuniu ainda especialistas nacionais, que abordaram a evolução dos rituais funerários, as consequências psicológicas das restrições aos funerais durante a pandemia de covid-19, a participação das crianças nas cerimónias, o luto perinatal na ausência de ritual funerário e as novas formas digitais de despedida e de construção da memória.
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