OPINIÃO: A República não vive só de datas

Entrar em fevereiro implica dobrar o 31 de janeiro, uma data especial para os republicanos.
As datas ajudam a lembrar, mas não sustentam regimes. Servem para assinalar começos, vitórias ou ruturas, mas não substituem o trabalho quotidiano que mantém viva uma ordem política. A República não vive só de efemérides; vive de práticas, instituições e cidadãos capazes de a compreender e de a exigir.
Celebrar datas de vitória democrática é positivo e necessário para a manutenção da identidade e da memória coletiva. Esquecer, em ações, o que as tornaram necessárias pode ser hipocrisia ou distração graves. Mas viver a República como um calendário simbólico é uma forma subtil de a esvaziar. Quando a memória se reduz a rituais repetidos, corre-se o risco de confundir comemoração com continuidade.
A República é uma construção histórica exigente, cheia de avanços e recuos, conflitos e compromissos. Não nasceu acabada nem ficou garantida por decreto. Depende da qualidade das instituições, da separação de poderes, do respeito pela lei e da maturidade cívica de quem nela participa. Nada disso se resolve com discursos ou flores ocasionais.
Há um erro recorrente: tratar a República como património adquirido, imune ao desgaste. Como se bastasse invocá-la para que ela funcione. Mas os regimes políticos não falham de um dia para o outro; degradam-se lentamente, por hábito, por negligência, por cedência sucessiva ao facilitismo ou ao egoísmo tão confortáveis.
A República também não se defende apenas contra fantasmas do passado. Defende-se, sobretudo, contra vícios do presente: a instrumentalização das instituições, o desprezo pelo rigor, a confusão entre popularidade e legitimidade, a tentação de governar por exceção permanente - a militância surda do eu certo contra o outro intolerantemente errado.
Honrar a República não é repetir slogans nem reclamar exclusividade moral sobre ela. É aceitar o seu carácter imperfeito e trabalhar dentro dele. É exigir mais quando ela falha e resistir à tentação de a usar como bandeira contra o outro.
Creio que há duas realidades cúmplices neste divórcio entre a República e os republicanos: o adormecimento para a prática da cidadania, seja nas famílias, seja nas associações; a política de secagem e fratricídio nas estruturas partidárias locais (dos vários locais). O debate interno, a aprendizagem da discordância sob o conforto do companheirismo ou da camaradagem, sem que comprometa as relações entre as pessoas, é base para se partir para o passo seguinte. O debate interpartidário com o mesmo respeito do interno, ajuda a não encontrar a vitória na desqualificação básica e rápida do interlocutor. Se dentro destas estruturas, pequenas, não há escola de respeito e de razão é pouco mais do que fezada, esperá-los na sociedade civil ou no panorama político nacional.
Sou independente, por enquanto, e tenho sido. Sou-o com a certeza de que, tanto agora como quando deixar de o ser, mais do que ter o meu partido forte na minha cidade é importante ter vários partidos fortes. O democrata não ganha quando o seu partido ganha, o democrata ganha quando há democracia forte, debate sério, belo e desafio para melhorar.
Talvez a melhor forma de celebrar a República seja simples e discreta: respeitar as regras quando ninguém está a ver, exigir instituições fortes mesmo quando incomodam e recusar a ideia de que a democracia se esgota numa data no calendário.
A República não morre quando o que defendo perde na praça ou nas urnas. A República vive quando nós, cidadãos, encontramos razões para descolar as nádegas do conforto, para marcharmos na caminhada difícil do diálogo, da negociação e do respeito pelo outro.
Um selo ao peito do meu vizinho-de-sempre não muda a sua natureza - ainda que esse selo afirme a sua admiração por oportunistas, hipócritas e manipuladores. Da mesma forma, um símbolo que remeta para uma causa aparentemente justa ao peito de um vizinho-oportunista, não o faz menos oportunista - não muda a sua natureza.
Hoje votou-se, de hoje a oito vota-se outra vez. Far-se-ão as contas. Importa que a República não morra nas urnas. Importa ainda mais que não são queiram urnas na curva da vida para quem acreditou no que nós não acreditamos.
Os dias da República ainda são todos, os casacos de republicanos e democratas também, tenho dúvidas que na maioria desses casacos more a democracia e não a militância-da-certeza de democratas para si mesmos: instaladores da sua pequena ditadura contra o outro.
A República não precisa de ser celebrada todos os dias. Precisa, isso sim, de ser honrada e praticada. Vejo esse desafio como sermos, em nós, a Revolução que acreditamos ser necessária no dia-a-dia.

António Carraco dos Reis

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