O dia 1 de junho chega, sempre, com a habitual magia que ilumina os corredores das nossas escolas. Afixamos os desenhos coloridos nas paredes, ouvimos as gargalhadas que ecoam mais alto no pátio, servimos no refeitório uma refeição do agrado da “pequenada” e congratulamo-nos com a concretização de um dia inteiramente dedicado à alegria. Mas, para além dos balões, dos doces e das festas, o Dia da Criança convida-nos a um exercício de reflexão muito mais profundo e urgente.
Como professora, o meu olhar está habituado a procurar e a cuidar dos tesouros escondidos no silêncio e na diferença. E é precisamente no silêncio de muitas das nossas rotinas escolares que se escondem realidades que a sociedade teima em não ver. Este 1 de junho não pode ser apenas uma data festiva no calendário; tem de ser o dia em que decidimos, finalmente, olhar de frente para a criança que carrega o peso do mundo nos ombros. Falamos daquelas a quem a infância é roubada cedo demais. Meninos e meninas que são forçados a crescer à pressa para assumir responsabilidades adultas que nunca deveriam ser suas. São os pequenos cuidadores que, em vez de brincarem no recreio ou estudarem descansados, têm a seu cargo a tarefa de cuidar de si próprios e, muitas vezes, dos irmãos mais novos. Este peso duplica quando cruzamos a vulnerabilidade da idade com o desafio da imigração. A Figueira da Foz é hoje um mosaico vibrante de famílias que chegam de longe, trazendo na bagagem outras línguas e outras vivências. Mas, por trás do brilho da novidade, há uma exigência avassaladora para os mais novos. São estas crianças que, por aprenderem a língua mais rápido do que os pais, se transformam em tradutoras oficiais da família. Acompanham os adultos a consultas médicas, a serviços públicos e a reuniões, carregando a angústia de ter de traduzir um mundo que eles próprios ainda mal compreendem. São crianças que ajudam os pais no trabalho, que chegam à escola já exaustas, que não têm tempo, espaço ou apoio para fazer os trabalhos de casa e que, por força destas circunstâncias esmagadoras, acabam por não conseguir os resultados académicos que a sua inteligência e potencial alcançariam noutras condições.
Olhar para o recreio da nossa escola hoje é ver o mundo em miniatura. Recentemente, na minha escola, celebrámos o Dia Mundial da Diversidade Cultural. Foi um momento lindo, onde os alunos estrangeiros mostraram os seus trajes, partilharam a sua gastronomia e os seus saberes com um orgulho genuíno. Naquele dia, eles foram vistos. A lição mais rica e transformadora aconteceu fora das quatro paredes da sala de aula, mostrando-nos a verdadeira essência de uma escola de todos para todos. No entanto, a inclusão não se esgota num dia de festa. A verdadeira inclusão, aquela que vai muito além dos papéis e das leis, faz-se no quotidiano.
Como escreveu de forma tão terna o poeta e ensaísta português José Tolentino Mendonça: "O que salva não é a ideia que fazemos do outro, mas a atenção que lhe dedicamos".
Dedicar atenção significa escutar o que está por trás de um olhar tímido, de uma palavra dita a medo numa língua que ainda não é a sua, ou de um silêncio pesado de quem já carrega preocupações de adulto. Para as crianças que vivem em contextos de migração, de pobreza ou de recomeços difíceis, a escola tem de ser muito mais do que um espaço de livros e exames. A escola tem de ser o lugar seguro onde elas podem pousar as malas pesadas do mundo, recuperar a rotina, descobrir o afeto e, finalmente, voltar a ser apenas crianças.
Independentemente de onde nasceram ou das circunstâncias que as trouxeram até nós, todas as crianças partilham a mesma pátria universal: a infância. Salvaguardar os seus direitos fundamentais à Educação, à Saúde e ao Brincar é um dever inegociável de todos nós, todos os dias do ano.
Não deixemos nenhuma criança carregar o mundo sozinha. Sejamos a comunidade empática, de mente aberta e braços disponíveis, capaz de acolher a singularidade e a fragilidade de cada uma delas. Porque só quando a criança mais invisível, mais sobrecarregada e mais silenciosa se sentir verdadeiramente protegida, acolhida e amada na nossa cidade, é que celebraremos, na sua plenitude, a beleza e a leveza de ser Criança.
Lina Fernandes
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