«Pontos de Luz: Uma Jornada Fotográfica no CAE», é o título da exposição assinada por Rui Santos e que ontem foi inaugurada, no âmbito do 24.º aniversário do Centro de Artes e Espetáculos.
Pedro Santana Lopes e Cláudia Rocha (presidente da autarquia figueirense e vereadora da Cultura), visitaram a mostra que pode ser apreciada até 30 de agosto e que reúne, na Sala Afonso Cruz, um conjunto de 26 fotografias. Oportunidade para Rui Santos celebrar a sua arte com família, amigos e muitos/muitas do que consigam partilham o dia-a-dia da atividade cultural produzida e promovida pelo CAE.
Em «Pontos de Luz: Uma Jornada Fotográfica no CAE», de Rui Santos recorda momentos marcantes de mais de duas décadas de atividade deste equipamento cultural municipal.
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A exposição «Pontos de Luz» de Rui Santos reúne um conjunto de 26 fotografias produzidas originalmente no âmbito da documentação de espectáculos do CAE. Fazer justiça a este núcleo — fragmento apenas de um percurso longo e discreto — implica, porém, deslocar o olhar da eficácia documental para uma outra dimensão do trabalho do autor. Mais do que a capacidade de fixar visualmente instantes irrepetíveis, estas fotografias revelam uma prática autoral que constrói a imagem como gesto de leitura, a bem dizer, como gesto de interpretar aquele acontecimento a partir da luz, do espaço, do tempo e da relação entre corpos, matéria cénica e público.
A diversidade disciplinar representada — música, dança, teatro, performance, concerto, gesto coreográfico ou dispositivo cénico — não produz dispersão formal. Pelo contrário, deixa perceber a linguagem fotográfica de Rui Santos, sustentada numa atenção rigorosa às arquitecturas do espectáculo e, muito particularmente, ao trabalho da luz como princípio organizador da imagem. Assim acontece em Severa, onde o banho cromático vermelho uniformiza o campo visual e converte a massa coral numa superfície de tensão dramática; em Sofia Escobar, em que os feixes descendentes constroem um eixo de centralidade que articula artista, palco e audiência; em O Salvado, onde a incidência recortada sobre o corpo isolado instala um regime de presença feito de contenção espacial e confronto com o vazio. A luz chega-nos, pois, não apenas como condição da visibilidade ou prolongamento do desenho cénico, mas como matéria constitutiva da própria fotografia — elemento capaz de ordenar, separar, aproximar, fazer emergir um mundo visual plástico dentro do mundo representado.
Também o enquadramento indicia o posicionamento singular deste autor perante o espaço observado. Há, nestas imagens, uma apropriação do espetáculo que ultrapassa uma vocação descritiva. O fotógrafo parece tomar como seu o território que percorre, movendo-se entre proximidade e distância não por conveniência técnica, mas segundo uma lógica de tensão visual e afectiva. Em certos momentos, a imagem aproxima-se até ao limiar da intimidade — um rosto suspenso na emissão vocal, uma mão em contacto com o instrumento, um corpo capturado na instabilidade do gesto — fazendo surgir um lugar de intimidade performativa frequentemente invisível ao espectador presencial. Noutros casos, o afastamento torna-se decisivo. Em Madame Butterfly, O Misantropo ou O Quebra-Nozes, a abertura do plano integra palco, arquitectura cénica, desenho lumínico, maquinaria técnica e relação com a sala, oferecendo uma leitura expandida do espectáculo. O espaço deixa então de funcionar como contexto e integra a matéria da composição; o movimento entre escalas torna-se, a par da luz, outro dos traços mais consistentes do olhar de Rui Santos, capaz de negociar simultaneamente o detalhe expressivo e a dimensão expandida do acontecimento.
A negociação com o espaço prolonga-se a uma relação particular com o tempo. Se a fotografia de espectáculo tende muitas vezes a privilegiar o instante culminante, o gesto imediatamente reconhecível ou aquilo que o arquivo confirmará retrospectivamente como “o momento”, aqui a ideia de momentum adquire uma formulação mais complexa. O interesse parece residir menos na captura do auge e mais na apreensão de estados de suspensão expressivos: concentração, intensidade latente, expansão. A imagem capta o que antecede ou prolonga o acontecimento visível — a respiração antes da entrada musical, a tensão muscular do corpo performativo, a atenção dedicada que circula entre palco e plateia. Deste modo, não secciona o fluxo do espetáculo, condensa-o.
É dessa suspensão expressiva, dessa modelação lumínica e desse desenho espacial que Rui Santos constrói plasticamente as suas imagens: em AUTO?PSIA, de Olga Roriz, a composição centrada nas pernas elevadas converte o corpo num desenho quase abstracto, simultaneamente rítmico e escultórico; em Sevilla Flamenco Company, a geometria das posições corporais, articulada com a direcção da luz, produz uma tensão formal que resiste à mera ideia de explosão cinética; no plongée sobre o piano do Figueira Jazz Fest, a estrutura do instrumento reorganiza a percepção da performance musical, tornando-se ela própria paisagem visual.
Deve ainda notar-se a presença recorrente do público. Em Ana Lua Caiano, Sofia Escobar, Ficheiros Secretos ou O Quebra-Nozes, a audiência não permanece fora de campo nem surge reduzida a ruído periférico. Integra activamente a composição, lembrando que o espectáculo é uma experiência relacional, feita de atenção, circulação afectiva e comunidade temporária. A fotografia não observa apenas quem actua; observa igualmente quem recebe, quem espera, quem partilha o mesmo tempo suspenso da representação. É talvez aí que o conjunto de imagens expostas em “Pontos de Luz” encontra uma das suas singularidades mais discretas. Sem renunciar à sua origem documental, o trabalho de Rui Santos desloca continuamente a fotografia para um território de interpretação artística. Conhecedor íntimo das costuras desta sua segunda casa — o CAE — que percorre com a naturalidade de quem aprendeu a existir sem perturbar a cena, o fotógrafo não procura afirmar uma falsa objectividade nem reclamar protagonismo sobre aquilo que documenta. O seu gesto opera noutro lugar: o da capacidade de reconhecer, dentro da duração efémera do espectáculo, uma potência especificamente fotográfica, feita de luz, enquadramento, ritmo espacial e relação com o outro.
No fundo, o que nelas persiste não é apenas o instante preservado. Vivem da proximidade paciente a um universo partilhado e da rara capacidade de transformar o acto de registar num acto de presença.
Maria Coutinho
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